Literatura Gospel



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O calvinismo, a palmada, e as perguntas importantes

Como os cristãos devem proceder diante de tal impasse?

Agora é oficial: o Senado já aprovou a lei da palmada, e basta a sanção da presidente para a coisa começar a valer. Segundo a previsão legal, castigo que promova “sofrimento físico” é agora passível de punição. Como isso vai se dar, ninguém sabe ao certo. Nos piores cenários – já imaginados por alguns – os filhos denunciam os pais e os cidadãos passam a ser vigias uns dos outros. A série de televisão desperate housewives ilustrou cena parecida, com o episódio de uma afilhada que denunciou sua madrasta, forjando provas contra ela.

Nos cenários mais positivos, os pais passarão a ser pessoas mais amáveis e educarão seus filhos, disciplinando o seu caráter, resistindo à desobediência e desafios diretos, atuando mesmo em sujeitos com um nível de perversidade e obstinação mais elevados, sem levantar um dedo contra eles.
A lei, em si, é um despropósito, e, como produto de moda, e não de reflexão profunda, já nasce cheia de problemas que dificultam sua fiscalização e aplicação. Como em normas desse tipo, alguns poucos eleitos serão alvo do “rigor legal”, provavelmente de acordo com o seu grau de perturbação (ou inimizade) ao policial, ao juiz, ou ao partido.

Mas eu escrevo e fujo do ponto. O que eu queria dizer é que agora, no Brasil, estamos entrando em um novo momento. Ao que parece, até então não havia dispositivo legal que constrangesse um cristão a desobedecer diretamente a Bíblia, seja em mandamento, ou em princípio. Com a lei da palmada, tal figura se apresenta. E, com ela, os conflitos jurídicos.

Agora nascerá a discussão dos limites da liberdade religiosa. Tal conversa já existe quanto aos fundamentalismos genocidas, é verdade, mas não quanto a expressões pequenas e simples de obediência aos textos sagrados. Agora os pais cristãos, e cidadãos brasileiros, levantarão a pergunta se podem permanecer firmes na Constituição, que lhes dá direito de preservar sua fé e práticas com base nos princípios religiosos – inclusive os relacionados à educação -, ou se sua vida é regida pela lei da palmada, que diz, em outras palavras, ser ilegal viver de acordo com o ensino bíblico (a respeito do castigo físico na educação das crianças).

Talvez possamos ir mais longe. E quanto aos cristãos que, ou não são pais, ou simplesmente não castigam fisicamente seus filhos, mas ainda concordam que os princípios bíblicos são fiéis e sábios? Se alguém citar Provérbios 29.15 em uma rede social, comete o crime de incitação ao crime? (Código Penal, art. 286) Se alguém parabenizar publicamente um pai por continuar disciplinando seu filho com uso da palmada, é enquadrado em fazer apologia de criminoso? (Código Penal, art. 287) As perguntas devem ser lançadas, para que haja alguma reflexão sobre o ponto.

Como os cristãos devem proceder diante de tal impasse? Ficam com a Escritura? Com a Constituição? Com a lei da palmada? O novo momento deve ser aproveitado para resgatar a riqueza do calvinismo, tanto em sua expressão “original”, nos escritos do reformador de Genebra, quanto na interpretação holandesa de tal tradição.

Explico: na obra de João Calvino e em confissões reformadas encontraremos uma teologia da vida civil. Ali será apresentado, mediante séria exegese, o lugar dos “magistrados civis” (legislativo, executivo e judiciário), e as responsabilidades do cristão. Ali se encontrará um fundamento sadio para a resistência ao Estado no caso de este direcionar o povo contra as Escrituras. A legítima e cristã desobediência civil repousa em tais páginas.

No caso dos holandeses, é Abraham Kuyper quem se levanta para nos ajudar. Com o conceito de soberania das esferas, mostrará o lugar devido do Estado, bem como da família, e nos indicará que qualquer interferência ou sobreposição de áreas não apenas produz resultados práticos terríveis, como rompe estruturas da realidade dadas por Deus.

Novos momentos pedem o resgate da sabedoria antiga, aplicada às questões contemporâneas. É a hora de fazemos as perguntas incômodas, e apresentarmos as propostas do cristianismo da reforma para o dilema da palmada.


Retirado do Blog: A Bíblia, o Jornal e a Caneta / allenporto.wordpress.com