Literatura Gospel



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O Último Mártir do Coliseu

Deve ter parecido estranho aos romanos que a morte de um homem produzisse um resultado tão inesperado.

Maxêncio havia sido afogado no Tibre, e Constantino marchara em triunfo para a capital. Em alta voz, e por meio de inscrições, ele anunciara a todos os homens o estandarte da salvação. Erigira uma imensa cruz no ponto mais alto do Capitólio, e pusera sob ela esta inscrição: "Por este símbolo salutar, o tipo genuíno da fortaleza, libertei e livrei a vossa cidade do jugo escravo de um tirano, restaurando o senado e o povo romano ao seu esplendor e dignidade prístinos". Esta é a cruz que se ergue triunfante sobre o Capitólio. Roma tem visto muitas maravilhas em seus vinte e seis séculos de existência, mas a cena sobre a mais elevada de suas colinas, na manhã seguinte à batalha da Saxa Rubra, foi a mais estranha, e ao mesmo tempo a mais importante na história de sua variada carreira.

Aquela que foi a coisa mais abjeta, mais desprezada, e mais perseguida no mundo, tomou-se num momento o emblema do triunfo, o verdadeiro tipo da fortaleza, o instrumento de libertação e redenção para um povo ferido e esmagado! Após séculos de perseguição, após toda a oposição que o poder humano, ou a malícia humana, pôde trazer contra a Igreja, esta Igreja triunfa agora no emblema de sua imortalidade: a cruz sobre o Capitólio.

Alguns dos pagãos mais inveterados mal podiam acreditar em seus sentidos; saíam murmurando blasfêmias contra o Deus a quem ainda odiavam, mas cujo poder eram forçados a reconhecer. Os cristãos reuniram-se junto ao símbolo de sua esperança, derramando lágrimas e entoando animadamente os cânticos do profeta real que profetizara o seu triunfo. Bem distante, na decida do Capitólio, os grupos de cristãos que se retiravam ainda ouviam a canção: "Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravilhas?"

Talvez, porém, esta seja uma congratulação inoportuna para um triunfo que durará apenas um instante. Ainda não se completaram as suas cenas de horror no Coliseu, e o sangue cristão deve fluir novamente em sua arena. O título do presente capítulo revoca cenas de matança e perseguição tão violentas quanto qualquer uma das que já vimos. Não obstante, o triunfo de Constantino foi duradouro, completo e universal.

Os rios de sangue que correram de milhares de mártires da fé não haviam completado a medida de sua iniquidade; parecia que ainda faltava algum sangue de outro caráter. E o último fluxo da torrente rubra que completou o horrendo holocausto de seres humanos sacrificados nesse poderoso anfiteatro foi o sangue de um mártir da caridade. Passemos a esta última e emocionante cena registrada dos mártires do Coliseu.

Um dos primeiro atos de Constantino foi condenar por um decreto público aqueles cenários de carnificina, tão incompatíveis com o espírito do cristianismo. Este foi um importante evento, não apenas na história do Coliseu, mas na própria história de Roma. O povo adorava esses espetáculos com um cego fanatismo. Acontecera freqüentemente, na história pretérita da cidade, de turbas enfurecidas, respirando violência e fúria, e ameaçando inundar as ruas com sangue patrício, serem acalmadas pelos jogos do Circo e do Coliseu. A popularidade de cada novo imperador dependia em grande medida do caráter dos jogos com os quais entretinha os seus súditos. Em meio à guerra, à fome e à desgraça pública, o povo afluía em multidões despreocupadas para a intoxicação do anfiteatro e do circo. Quanto mais sangue derramado, maior o entusiasmo do povo; quanto mais ímpio e cruel os jogos, maior se supunha a devoção aos deuses! Por isto, o fechamento do Coliseu era uma medida desesperada, que noutros tempo teria causado uma rebelião e custado ao imperador o seu trono. Apesar de todo o poder de Constantino ser empregado para sustentar o cumprimento de seu decreto, foi somente cerca de cem anos após a sua morte que se viu no Coliseu o último espetáculo gladiatório.

O cristianismo ia lenta, porém seguramente, varrendo da cidade cada vestígio do paganismo. A elevação do sexo feminino e o fim da escravidão foram feitos enormes, que lhe absorveram todas as energias por quase dois séculos. Honório renovou a lei proibitiva de Constantino, mas sem propósito. Os jogos não mais eram mantidos pelo tesouro público, mas havia senadores e nobres ricos o suficiente para rivalizar com os entretenimentos imperiais de outros tempos. O Coliseu já não tinha os seus mártires, mas ainda possuía as suas vítimas. Finalmente, a suave influência do cristianismo triunfou; as incessantes orações dos cristãos atravessaram o firmamento. Até mesmo a mais estimada instituição da idolatria e da infâmia teve de render-se ao espírito regenerador da Igreja: o Coliseu encerrou a sua longa carreira de horror e carnificina com uma tragédia tão terrível quanto as que já mencionamos, mas que redundou em honra e glória da fé que conquistara Roma. Um pobre cristão chamado Telêmaco, que passara a vida solitariamente nos desertos do leste, foi inspirado por Deus para pôr um final nas profanações dos espetáculos públicos. Ele foi bem-sucedido, mas isto lhe custou a vida.

Bem longe, nas profundezas dos desertos líbios, ele ouvira que o Coliseu de Roma ainda se impregnava com o sangue de vítimas humanas. Talvez a descrição de seus horrores lhe tenha sido feita por algum penitente fugitivo, que conhecera a vacuidade e os perigos do mundo, e fugira para a solidão, a fim de preparar-se para a eternidade. Ele concebeu a ideia de um generoso esforço para destruir aquela paixão brutal; sentia que algo deveria ser feito, ainda que tivesse de deixar o seu deserto e derramar o próprio sangue neste empreendimento. Longa e fervorosamente, ele recomendou o pensamento a Deus. Em noites ininterruptas de oração e austeridade, lágrimas e profunda humilhação, ele suplicou por algum sinal da vontade divina. O que poderia fazer, pensava ele, um pobre e ignorante eremita, com dificuldade para falar, descalço e vestido de saco? Reis, sacerdotes e mártires haviam falhado em erradicar o mal. Haveria ele de ser bem-sucedido? Temendo alguma ilusão de Satanás, ele hesitava e duvidava, mas a graça de Deus o impelia. Uma voz interior estimulava-o: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". Ele penetrou mais fundo na selva fechada e deserta para consultar um velho anacoreta, que fora discípulo do grande Paulo, e o primeiro a santificar aquelas regiões desabitadas. O idoso cristão disse-lhe para ir, pois Deus havia aceitado o seu sacrifício.

Finalmente, ele apanhou o seu bordão, e com muitas lágrimas, disse adeus à sua amada cela, à sua rústica cruz, e ao singelo córrego, cujo murmúrio constante juntava-se a ele no louvor a Deus. O deserto era um lar de delícias, mas o mundo à sua frente era escuro e sombrio. Nenhum soldado já se moveu com um passo mais valente que Telêmaco para o seu combate à orgulhosa paixão dos homens. Ele avançou através de cidades povoadas, planícies cultivadas, e passagens ermas nas montanhas. Ele não buscava teto, mas o palio desdobrado do céu; as pedras do deserto haviam sido o único travesseiro que ele usava havia muitos anos. Após uma jornada de semanas e meses, e talvez anos, exausto, com os pés feridos, mas deliciado, ele chegou finalmente sob os muros da Cidade Eterna. O sol brilhante refletia-se nos domos dourados da metrópole imperial. Os olhos do pobre cristão estavam deslumbrados com os templos cobertos de prata e ouro, e os intermináveis panoramas de colunas de mármore em volta dos palácios e teatros, que se erguiam a toda parte, com a magnificência e o esplendor que somente a fantasia pintaria para as cidades da terra dos sonhos. Ele entrou na cidade, e caminhou pelas ruas repletas de gente, alheio ao olhar das pessoas que o fitavam atraídas por sua vestimenta extraordinária. Alguns riam, outros insultavam; todos desprezavam o pobre cristão.

Tanto quanto sabemos, foi na manhã de Io de janeiro de 404, que Telêmaco entrou em Roma. Os jogos geralmente celebrados durante as calendas de janeiro estavam sendo inaugurados a expensas de um rico senador; embora inferior em magnificência, eles excediam em brutalidade os espetáculos da idade de ouro. Telêmaco avançou com a multidão em direção ao anfiteatro. Ao subir o Capitólio, com os seus cinqüenta templos ainda fumegando com os sacrifícios abomináveis, ele estremeceu; sabia que os demônios ainda estavam de posse daquela parte da cidade. Quais não foram os sentimentos de seu coração, ao avistar o imponente anfiteatro? Ele erguia-se no vale abaixo do Capitólio, com estupenda majestade altaneiro sobre os templos e arcos que cercavam o Fórum - imenso como as pirâmides que ele avistara em sua passagem pelo Egito, mais belo que qualquer coisa que lhe prendera o olhar naquela cidade de maravilhas, e mais alto que os montes ao redor, com uma solidez que parecia desafiar o declínio e a devastação do tempo. Telêmaco desceu a Via do Triunfo inconsciente de que ele mesmo caminhava para o triunfo - um dos maiores que o mundo já vira. Passou sob os arcos, onde nobres mártires tinham freqüentemente sido arrastados para serem expostos às bestas feras. Sentiu um arrepio de horror ao olhar pela primeira vez a arena manchada de sangue, cujas atrocidades haviam-lhe assombrado os sonhos, e por cuja conversão ele orava incessantemente. Ainda era cedo, e os jogos não haviam começado; o povo afluía para as bancadas; ele tomou assento, é alheio ao zumbido de milhares de vozes à sua volta, num instante envolveu-se em comunhão com Deus, como se estivesse orando às margens de seu regato, no deserto.

Absorto em oração, com as mãos cruzadas no peito, o cristão parecia aos romanos uma visão do outro mundo. Seu traje e sua aparência, e o halo de santidade que envolve o verdadeiro servo de Deus, e que não se pode ocultar, fizeram com que a multidão o fitasse com sentimentos matizados de desprezo, surpresa e reverência. "Quem ou o que é ele?", era a pergunta de cada pessoa admirada, que parava para fitar a extraordinária aparição sentada imóvel num dos bancos. Alguns achavam que fosse um pobre doido, que não merecia atenção; outros diziam tratar-se de um vagabundo do leste; e outros, que talvez fosse um mensageiro dos oráculos, já que estas personagens importantes andavam sempre vestidas fantasticamente, e envoltas em mistério e melancolia. O momento seguinte mostrar-lhes-ia que ele de fato era um mensageiro dos oráculos da Sabedoria Eternal, para ensinar ao mundo as grandes verdades proferidas nas revelações do evangelho.

Os jogos começam. À semelhança de Alípio, ele é arrancado de seu devaneio pelo grito inumano que saúda o primeiro grupo de combatentes. Quatro homens nus, corpulentos, e de aparência feroz, entram na arena; eles fingem estar animados, e cada um parece certo da vitória. Marcham ao redor da arena, de acordo com o velho costume dos jogos, para que o povo escolha os favoritos em quem apostar, e participe de sua vitória. Enquanto caminham, alguns dão um último adeus, fitando longamente e atirando um beijo com a mão, a um amigo nas bancadas superiores. Apesar de seu esforço de sorrir bravamente à morte, seu semblante ostenta a pálida estampa do desespero, e a natureza trai-lhe o medo da separação. O que os faz apressar-se ao combate não é o que os romanos chamam de bravura, mas uma fúria cega. Agora eles medem as espadas, e são emparelhados pelo prefeito dos jogos; passam alguns instantes em divertida esgrima com espadas de madeira; então chegam as brilhantes espadas de aço, polidas e lustradas para a luta mortal. Eles agarram-nas, e no momento seguinte inicia-se o fogo da matança. Mas vejam! O cristão levantou-se! Ele voa pelas arquibancadas, salta a grade de ferro do pódio, e com mão de gigante agarra os combatentes, e os rodopia à sua volta.
Pena alguma pode descrever a cena que se seguiu. O povo é um leão privado de sua presa por um animal inferior. Nunca as paredes do velho anfiteatro retiniram com um grito de frenesi mais alto ou selvagem; no exato momento em que a sua excitação tornava-se intensa, os espectadores foram frustrados por um estranho atrevido, e a sua indignação passou à fúria. Podemos ter uma pálida ideia dos sentimentos da turba quando Telêmaco apareceu na arena para interromper os gladiadores, se imaginarmos um cristão vestido em roupas de saco, precipitando-se no palco do Alhambra, em Londres, para reprovar a indecência e a leviandade do seu bale. Os gladiadores ficaram atordoados e aterrorizados, como se em presença de um ser sobrenatural. O santo homem diligenciou por falar ao povo, mas eles assoviavam, vaiavam e gritavam com uma raiva demoníaca. Finalmente, incapazes de se controlar, rasgaram os assentos e quebraram as bancadas; em poucos minutos o ar encheu-se de fragmentos dos bancos e da pavimentação, atirados de todos os lados, visando atingir Telêmaco. Ele ajoelhou-se, e estirando os braços ao céu, ofereceu-lhe a vida pela conversão do grande teatro da infâmia. O mártir da caridade tombou, cobrindo com o corpo uma das manchas mais escuras da arena do anfiteatro. Onde Inácio e uma multidão de outros mártires foram supliciados, o glorioso mártir da caridade caiu sob a chuva de cacos de mármore e de ornamentos, arremessados sobre ele de todas as arquibancadas do Coliseu, que nesse momento achava-se repleto de demônios regozijando-se com a degradação da raça humana.

Foi terrível a sentença descarregada sobre o pobre cristão desarmado, por ousar interrompê-los em seu cruel esporte. Contudo, ele foi bem-sucedido: os gladiadores por ele separados nunca mais voltaram a lutar. O Coliseu converteu-se. O imperador Honório proibiu imediata¬mente todos os espetáculos no Coliseu, e sancionou a lei com severas penalidades. Poucos anos depois, houve mais um esforço desesperado para ressuscitar as carnificinas do anfiteatro, mas a vontade de Deus triunfou: o esporte desumano dos espetáculos gladiatórios é tão-somente uma nódoa do passado. Pelo exemplo sacrificial de um servo de Deus, o cristianismo pôs fim aos crimes de três séculos, e elevou a moral e o caráter racional da espécie humana, triunfando sobre as paixões brutais que a degradavam.

A exaltação do povo cresceu, e espalhou-se como fogo pelas arquibancadas. Alguns fugiram aterrorizados, e propagaram boatos alarmantes pela cidade; o restante do povo arrebanhou-se para o anfiteatro, aumentando o barulho e a confusão. O prefeito mandou que tocassem as trombetas, e que os gladiadores recomeçassem os jogos, mas tudo em vão. Um decreto fora escrito no céu, e nenhum poder humano poderia mudá-lo. Finalmente, o exército recebeu ordens de dispersar a turba, e os esportes do dia foram declarados encerrados.

Só podemos admirar o zelo de Telêmaco. Gostamos de recordar esta última tragédia do Coliseu como uma das mais sublimes e interessantes da Igreja Primitiva. O triste destino do pobre cristão faz-nos estremecer, mas o seu sofrimento foi momentâneo. O seu sacrifício foi uma das mais elevadas virtudes que um homem pode exercer por seus semelhantes; agora a sua coroa é brilhante e eterna. O seu amor era um fogo que o consumia. O seu heroísmo e a sua abnegação foram além do natural, dando-lhe aquele sinal distintivo, pelo qual são conhecidos os seguidores do Salvador, que tanto amou.

Deve ter parecido estranho aos romanos que a morte de um homem produzisse um resultado tão inesperado. A sua admiração cresceu, quando souberam que o homem assassina¬do era um pobre, estrangeiro, e odiado cristão. A vida humana tinha tão pouco valor naqueles dias, que os pobres escravos eram postos à morte por seus senhores e amas, até mesmo por alguma injúria acidental contra um cãozinho ou um gato de estimação. No Coliseu, especial-mente, não era incomum ver uma centena de gladiadores cair num único dia; a morte era o espetáculo mais comum em sua arena. Contudo, a morte desse pobre cristão não apenas separou os gladiadores em seu ataque assassino, e dispersou a multidão de cruéis espectadores, como arrancou do poder supremo do Império uma proibição definitiva e inviolável desses esportes desumanos. Tão triunfante e perfeito foi o sucesso da missão de Telêmaco, que não apenas no Coliseu, mas em todos os anfiteatros do Império, a espada do gladiador foi quebrada, e a degradante profissão de assassino foi para sempre abolida. Este é um dos muitos fatos registrados na história, pelo qual se vê que o cristianismo regenerou o mundo. Os agentes da Divina Providência são pequenos e desprezíveis, mas o seu trabalho tem sido milagroso e eterno em sua influência sobre o destino do homem.


Por A. J. OReilly - Os Mártires do Coliseu