Literatura Gospel



X

Mundo Apostólico

...os que foram dispersos iam por toda a parte pregando a palavra.

"...e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra." Atos 1.8

Para melhor compreendermos o ministério apostólico dos doze discípulos de Jesus, é interessante que, antes, gastemos algum tempo analisando as condições culturais, políticas e religiosas vigentes no período do primeiro século da era cristã, cenário onde se desenrolaram as atividades missionárias dos apóstolos, cujas vidas serão objeto de nossa investigação.

Uma vez incumbidos de anunciar a boa nova do Evangelho a toda a criatura (Mt 28; 19; At 1:8), os apóstolos passaram por um processo gradativo e, por vezes, penoso de ruptura com o típico sectarismo judaico, que lhes imprime um forte sentimento de exclusividade em relação ao Todo-Poderoso. A desafiadora perspectiva de evangelizar os gentios impulsionou suas numerosas campanhas missionárias, orientadas para um mundo que, em¬bora ostentasse uma atmosfera relativamente pacífica, apresentava muitas situações de conflitos sociais localizados, típicas de uma sociedade que experimentava o impacto de profundas transformações culturais, como aquelas vividas no primeiro século. Essa conjuntura social ofereceu às missões apostólicas horizontes tão atraentes quanto perigosos, como veremos detalhadamente mais adiante.

As primeiras experiências de oposição enfrentadas pelos doze, no exercício da propagação de sua fé, não vieram do estrangeiro, mas de seu próprio ambiente, da sua própria casa: a Palestina. Ali, a tenaz resistência das instituições judaicas sedimentou, aos poucos, a realidade de que aqueles para os quais o Messias viera não o receberiam (Mt 20.16, Jo 1.11).

Embora a palavra tenha encontrado solo fértil em muitos corações em Israel, tornava-se cada vez mais clara a direção divina que os impelia ao encontro dos gentios e judeus de além fronteira, para um ministério em que o limite seria o próprio mundo então conhecido. Entretanto, o livro de Atos nos permite constatar que as perseguições levantadas contra o evangelho nas cercanias de Jerusalém, por mais severas que se tenham demonstrado, não foram suficientes para consolidar nos apóstolos, num primeiro momento, a noção da mu¬dança na rota missionária que, em poucos anos, passaria a ser caracterizada principalmente por aspectos transculturais (At 8.1,4).

"Naquele dia levantou-se grande perseguição contra a Igreja em Jerusalém, e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria. (...)

Entrementes os que foram dispersos iam por toda a parte pregando a palavra."

A despeito de toda essa relutância, o caráter universal do evangelho não esteve oculto dos apóstolos nem mesmo no momento do desabrochar da Igreja, no Pentecostes. Essa experiência, magnífica em toda sua transcendência, ganhara um caráter universal pela presença e pelo testemunho de judeus e prosélitos procedentes de diversas nações do mundo antigo, milhares dos quais creram e foram batizados naquele mesmo dia (At 2.41).

Mais adiante, missionários como Paulo, Silas, Barnabé e Timóteo, embora não pertencendo ao seleto rol dos doze apóstolos, influenciariam definitiva¬mente a mudança de curso na ministração apostólica, em função de seu grande êxito na evangelização das populações greco-romanas. Em sua obra The Search for the Tivelve Apostles (p. 41), o dr. William Steuart McBirnie comenta a repercussão positiva do ministério gentílico de Paulo entre os demais apóstolos, ainda resolutos em dar as costas às missões internacionais.

"E possível que as experiências de Paulo tenham se transformado num desafio direto para muitos cristãos primitivos, e mesmo para alguns dos apóstolos, quanto ao seu alinhamento com a tarefa que desde o princípio lhes pertencia, a saber, abrir o caminho do evangelho para as nações do mundo.(...)

O livro de Atos pode ter sido posteriormente usado como um manual histórico dos métodos evangelísticos triunfantes dos quais Paulo se valeu, assim como uma prova clara de como o Espírito Santo estava inclinado a abençoar - embora não sem tantos obstáculos - a missão aos gentios. Porém, embora não estejamos aqui sugerindo que os apóstolos tenham sido constrangidos a sua tarefa de evangelização mundial pelo Livro de Atos- uma vez que a própria data de sua escrita impediria esta conclusão.
- cremos, ainda assim, na possibilidade de que algumas de suas mais antigas porções, assim como as experiências de Paulo nele relatadas, tenham acabado por surtir esse efeito. (...)
O próprio Paulo, de fato, constatou a relutância dos apóstolos em se dirigirem aos gentios, ao apontar sua estratégia, como vemos. E, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam , a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios e eles para a circuncisão.(GI 2.9).

Se o registro das experiências de São Paulo, naquilo que mais tarde veio a se tornar o livro de Atos, teve como um de seus propósitos o encorajar e instruir os apóstolos e outros obreiros cristãos primitivos quanto a sua mis¬são aos gentios, isto, de fato, foi o que veio a se suceder. Em algum lugar e nalgum momento, formal ou naturalmente, os apóstolos acabaram por decidir pela estratégia da evangelização mundial, tendo cada qual seguido seu destino estabelecido."

Essa tendência da expansão missionária aos gentios acabou reclamando para si um tratado que lhe oferecesse uma devida apologia. Tal obra, conhecida como Os Atos dos Apóstolos, foi preparada com esmero pelo médico, historiador e também evangelista Lucas, e passou para a posteridade não como uma narrativa fragmentada da história eclesiástica do primeiro século, mas como um forte argumento de que o próprio Deus, por Seu Espírito, impeliu o cristianismo para além dos limites da tradição judaica, tornando-o irreversivelmente universal.

Os estudiosos das biografias apostólicas têm sido incomodados com a questão acerca da permanência dos discípulos em Jerusalém, após a experiência do Pentecostes. Embora as Escrituras, assim como a história, não tenham deixado rastros que nos permitam elucidar essa dúvida, é bem provável que a maior parte deles tenha permanecido ligada ao templo e às demais tradições do judaísmo por mais de vinte anos, a despeito da incisiva ordenança do Mestre em ir e ensinar todas as nações. Talvez, a perspectiva do rompimento com o judaísmo tradicional tenha representado para aqueles devotos algo muito mais temeroso do que podemos imaginar, resultando, assim, numa ofuscação da gloriosa tarefa que os aguardava nas searas estrangeiras.

As circunstâncias políticas, sociais e religiosas que os esperavam nesse campo missionário cosmopolita serão o objeto de nossa análise a seguir. Ela nos ajudará a compreender como esses humildes galileus conseguiram, em me¬nos de meio século, ressoar a obra salvífica da Cruz por quase todo o mundo então conhecido.


Fonte: Aramis C. DeBarros - Livro Doze homens, uma missão