Literatura Gospel



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Justino Mártir

Convertido do Paganismo

Introdução

Quando o Filho de Deus reúne a Sua Igreja pela Sua Palavra e Espírito, Ele traz santos individualmente eleitos à comunhão da igreja de formas diferentes. Alguns nascem e são criados dentro da aliança e bebem das verdades da Escritura com o leito materno. Alguns são trazidos do mais escuro paganismo para dentro da comunhão da igreja através de uma mudança súbita da escuridão da idolatria para a luz do Evangelho. Alguns vivem por anos na periferia da igreja, raramente visitando uma igreja onde somente fraquíssimos rumores do Evangelho são ouvidos, mas que vêm à conversão e à fé após um longo período de tempo, embora tenham tido certa familiaridade com o Evangelho desde a infância. Alguns enfrentam uma longa e difícil peregrinação espiritual enquanto passam pelos ensinamentos estranhos de alguma seita e então pelo arminianismo extremo; e somente no final chegam na luz da verdade da graça soberana. Deus guia os Seus à comunhão da igreja de formas às vezes
estranhas e maravilhosas.

Nos primeiros anos da história da Igreja de Jesus Cristo, até mesmo durante o período apostólico, o mesmo princípio era verdade. A igreja dos tempos antigos era composta de judeus que tinham sido criados nas Escrituras do Antigo Testamento mas foram trazidos para a fé em Cristo pela mesma maravilha da salvação que salvou os gentios.

Alguns eram prosélitos, gentios convertidos a religião judaica, também trazidos finalmente à comunhão da igreja através da obra soberana do Espírito de Cristo.

Especialmente no dia em que o Evangelho foi pregado pela primeira vez no mundo mediterrâneo, a maior parte da igreja era constituída de convertidos provenientes do paganismo e da idolatria. Mas mesmo assim, a conversão forjada por Deus nem sempre era uma explosão súbita da luz da salvação na escuridão da incredulidade; às vezes esta era, até mesmo no mundo pagão, uma viagem, uma longa e árdua jornada, que finalmente trazia paz e salvação.

Esta é a história de um destes convertidos do paganismo, o pai da igreja, Justino Mártir.

Sua Conversão

O sobrenome de Justino não era realmente "Mártir". Ele recebeu esse nome porque ele morreu a morte de um mártir. Contudo, esta não é bem a questão desta história, mesmo que o fato dele ter selado confissão com seu sangue seja muito importante.

Justino na realidade nasceu na Samaria, embora por muitos anos ele não tenha tido praticamente nenhum relacionamento com a religião judaica ou com a fé cristã. Ele era filho de um grego chamado Prisco. Prisco e sua esposa foram enviados pelo imperador romano Vespasiano, junto com um imenso número cidadãos romanos, para estabelecerem-se em Flávia Neápolis, uma cidade conhecida nos tempos bíblicos como Siquém. Seu nascimento data por volta da virada do século 100 d.C. Parece-se que esta colônia de cidadães romanos era uma comunidade estreitamente ligada, e que o contato com as pessoas ao redor dela era incomum. O ano de 100 é, contudo, aproximadamente trinta anos depois da destruição de Jerusalém pelos exércitos de Tito, portanto pouquíssimos judeus restaram naquela área.

Justino era um estudante excepcionalmente brilhante. Relativamente jovem ele viajou por todo o império em busca de ensinamentos que o satisfariam. Ele mesmo nos fala sobre estes anos.

Já como um adolescente, Justino experimentou profundos desejos na sua alma que eram impossíveis de ser satisfeitos, mas que eram centrados na questão da relação do homem com Deus. Qual é a relação do homem com Deus? Como esta é estabelecida? O que deve se esperar dela? Estas questões não se aquietavam. Elas o atribulavam profundamente e as respostas lhe pareciam mais importantes do que
qualquer outra coisa. Ele, se necessário fosse, gastaria sua vida buscando por respostas para estas questões.

Depois de sua conversão Justino entendeu que estas questões e este profundo desejo insatisfeito por algo que ele não sabia o que era, era a obra de Cristo em sua alma. É duvidoso que Deus tenha trazido alguém à salvação e ao conhecimento de Cristo sem criar nele um desejo profundo, uma sede insatisfeita, uma fome por algo que não se tem. Agostinho, três séculos depois, expressou isto desta forma na obra Confissões:
"Minha alma não poderá encontrar descanso até que em Ti descanse". Este desejo, afinal, é gerado pelo conhecimento do pecado e pela falta de esperança e o vazio da vida causados pelo desespero do pecado. Salvação é pela fé em Cristo; mas apenas o pecador vazio precisa de Cristo; apenas o pecador sedento bebe da fonte de Águas Vivas; apenas o pecador faminto come do Pão da Vida; apenas os cansados e oprimidos vêm a Cristo para serem aliviados. É a obra comum do Espírito Santo trazer
a fé em Cristo mostrando soberanamente ao pecador a necessidade de Cristo.

Portanto não é estranho que Justino tivesse este profundo desejo. É uma ação extraordinária da providência de Deus isto ter feito parte de sua vida durante muitos anos antes que a paz viesse.
Justino viajou amplamente por todo o império a fim de que encontrasse ensinamentos que satisfizessem a sua alma. O politeísmo - a adoração de vários deuses - do paganismo pareceu-lhe extremamente ridículo e absurdo e não algo que satisfizesse a alma. Ele nos conta sobre estes anos vagando de um lugar para outro, mas vagando também espiritualmente.

Justino foi aos estóicos - uma escola de filosofia interessada principalmente com a ética. Eles o disseram que questões sobre a relação do homem com Deus eram relativamente sem importância e que ele não deveria incomodar-se com elas, pelo menos não em primeiro plano. Mas para Justino elas eram a única coisa importante.

Ele foi aos peripatéticos - uma escola de professores que perambulavam para espalhar seus ensinamentos. Depois de mais ou menos três dias com Justino, um dos tais professores não continuaria seu ensinamento até que tivesse a garantia de que Justino pagaria por seu ensino. A posição de Justino era que se um professor estivesse mais interessado em dinheiro do que em ensinar, ele não poderia ter nada a dizer que aliviaria a dor de sua alma.

Ele foi aos pitagóricos - filósofos de uma escola antiga que o disseram que não poderiam ajudá-lo antes que ele dominasse a música, astronomia e geometria, pois a verdade poderia ser aprendida apenas através do domínio destes assuntos.

Então ele descobriu aquela antiga escola da filosofia grega chamada platonismo. Elenos conta sobre isso: "[Aqui Eu] logo terei a visão de Deus, pois não é este o objetivo da filosofia platônica?

Sob a influência desta noção, ocorreu a mim que eu iria retirar-me a algum lugar solitário, longe da agitação do mundo, e lá, em perfeita auto reclusão, me entregaria às minhas próprias contemplações. Escolhi um lugar no litoral."

Justino provavelmente estava em Éfeso naquele tempo, uma cidade da Ásia Menor perto do mar, mas também perto de uma Igreja de Cristo estabelecida por Paulo.

Enquanto Justino se aplicava em suas meditações no litoral, um homem idoso se encontrou com ele e começou uma conversa. O homem idoso era um cristão. Justino argumentou veementemente com o homem idoso em defesa de sua filosofia de estimação e recebeu pouquíssima argumentação como resposta. Mas o homem idoso, curto e grosso, o interrompeu: "Você é apenas um tagarela, mas não um amante da ação e da verdade; seu objetivo não é ser um praticante da verdade, mas sim um argumentador esperto, um sofista ardiloso". Quando, a final, Justino fez a pergunta ao homem idoso: "Onde então está a verdade?" O velho homem respondeu: "Examinai as Escrituras e ore para que os portões de luz sejam abertos a ti, pois ninguém pode perceber e compreender estes assuntos a não ser que Deus e seu
Cristo o concedam entendimento".

Nós às vezes não estamos apenas envergonhados de testemunhar sobre a verdade aos outros, mas rapidamente damos uma desculpa para nosso fracasso através de um apelo ao conhecimento superior daqueles com quem discutimos. Entretanto, ainda é um fato notável sobre a igreja do período pós-apostólico, que a rápida expansão do Evangelho por todo mundo mediterrâneo aconteceu através do testemunho fiel do povo de Deus. Existiam poucos, se é que existiam, missionários naqueles dias depois dos grandes esforços missionários de Paulo. Apenas o povo de Deus, fiél e frequentemente sem instrução, testificando acerca da verdade e manifestando em suas vidas a alegria da salvação, foram o meio usado por Deus para espalhar o Evangelho por todo o mundo conhecido. Aqui temos um exemplo disso - o instruído Justino, foi levado aos seus joelhos em tristeza pelo pecado, por um humilde e ingênuo idoso, no litoral perto de Éfeso.

A importância da influência do testemunho cristão é evidente em outro aspecto da conversão de Justino. Ele conta em um de seus últimos escritos que uma das inquietações que se agitavam em sua alma antes de sua conversão era a fé inabalável dos cristãos que eram torturados pela sua fé e condenados à morte por confessarem a Cristo. De vez em quando ele testemunhava tais espetáculos públicos e ficava profundamente impressionado pela coragem resoluta de jovens garotas e homens
idosos. Ele secretamente se perguntava que tipo de força eles tinham para ser fiéis sob tais circunstâncias. Este testemunho também era importante.

O poder da salvação não é o poder da defesa eloquente da fé; é o poder de Deus - mesmo quando Lhe apraz usar meios humanos. Justino se tornou um fiel servo de Cristo e um valioso defensor da fé.
Sua Vida Como Cristão Depois que Justino se tornou um cristão e se juntou a Igreja de Cristo, ele passou seu tempo viajando pelo império escrevendo e ensinando.

As escolas daqueles dias não eram como as de hoje. Um homem dotado e instruído - e algumas vezes um homem nem um pouco dotado e estúpido - pararia em uma certa vila ou cidade e começaria a ensinar. Se achassem que o seu ensino valia a pena, logo alguns estudantes se reuniriam ao redor dele para estudar sob sua tutela. Se ele fosse um homem excepcionalmente hábil, ele poderia até mesmo estabelecer uma escola relativamente permanente que continuaria através de seus alunos após sua
morte.

A obra da vida de Justino foi feita mais ou menos desta forma. Contudo, ele não tentaria estabelecer nenhum tipo de escola permanente. Ao invés disso, ele estava interessado em usar seu conhecimento e habilidade para instruir outros na fé cristã e ensiná-los a verdade da Palavra de Deus. Muitas vezes quando a oportunidade aparecia, ele se envolvia em debates públicos com defensores de religiões e filosofias pagãs. Foi esta prática que por fim acarretou em seu martírio.

Entretanto, ele também escreveu um considerável número de obras. Alguns de seus escritos subsistiram os efeitos do tempo e estão disponíveis hoje. Ele foi um dos primeiros defensores do cristianismo que usou suas habilidades de escrita para responder aos críticos. De fato, seus escritos foram tão efetivos que ele se tornou conhecido tempos depois como um apologeta - em outras palavras, alguém que defende a fé.

Uma pequena consulta aos escritos de Justino darão uma ideia do que ele fez.

Ele atacou diretamente o paganismo, mostrando o completo absurdo e estupidez de adorar doze ou quinze deuses. Ele argumentou enfaticamente que o paganismo não tinha nenhuma possibilidade de ser uma religião verdadeira quando esta produzia tantas imoralidades terríveis - naqueles dias, o Império Romano estava morrendo de uma podridão mortífera que consumia suas partes vitais e era conivente para com todo o tipo de pecado desprezível praticado debaixo do céus.

Os pagãos, ficando cada vez mais desconfiados e com medo do cristianismo enquanto este se espalhava ao redor do mundo e ganhava convertidos de todas as classes, começaram a atacá-lo perversamente. Cristãos eram acusados de ateísmo por rejeitarem adorar a César. Eles eram acusados de traição porque falavam de um Rei maior do que César. Estranhamente, eles eram acusados de canibalismo porque
diziam que, na sua celebração da Ceia do Senhor, comiam o corpo do Senhor e bebiam do Seu sangue. Eles foram acusados de imoralidade pois tinham "festas de amor" destinadas a expressar a comunhão dos santos e dar ajuda material aos pobres, mas que eram interpretadas como orgias imorais. Justino dedicou seu tempo para responder com cuidado e paciência todas estas acusações tolas e bárbaras.
Mas ele também começou a provar a verdade da religião cristã. Ele o fez principalmente de duas formas: (1) Ele apontou para os profetas do Antigo Testamento e mostrou como as suas profecias foram exatamente cumpridas na obra e morte de Cristo. Esse foi um argumento surpreendente, um que nossa própria Confissão Belga usa no Artigo V em defesa da autoridade da Escritura.

Provavelmente, porque em essência as Escrituras do Novo Testamento - que tinham sido escritas tão recentemente - não eram amplamente conhecidas, ele apelou aos milagres como sendo provas do caráter autêntico da fé cristã, um propósito para o qual o Senhor deu o poder de milagres à igreja primitiva.

Suponho, contudo, que em respeito a uma de suas ideias Justino seria considerado um herege pelos padrões de hoje. Não é certo, penso eu, chamá-lo de herege, pois a igreja sabia pouquíssimo sobre a verdade nos primeiros anos da existência de seu Novo Testamento. Às vezes, alguns erros eram cometidos por uma ignorância que a igreja anos mais tarde nunca cometeria - pelo menos, se pensa que sim. Justino, que havia vindo do paganismo, acreditava que os filósofos pagãos possuíam a semente
da verdade em seus corações, e tal semente da verdade era o próprio Cristo, o Logos de João 1. Já que estes homens possuíam esta semente da verdade, era possível, conforme Justino acreditava, que os melhores deles fossem salvos sem fé em Cristo.

Esta semente da verdade se expressou na filosofia deles.

Isto estava errado. Contudo, hoje há aqueles que se auto denominam reformados que ensinam a mesma coisa.

Seu Martírio

Havia chegado a hora de Justino ganhar o sobrenome "Mártir". Esse nome seria dado a ele por uma igreja que mantinha a memória de seu martírio em reverência.

Durante o percurso de suas viagens Justino foi duas vezes para Roma. Na segunda vez, ele enfureceu um filósofo pagão de tal maneira que, uma vez inábil de derrotar Justino em debate, decidiu matá-lo. Assim ele denunciou às autoridades que Justino era um cristão culpado de todos os tipos de crimes terríveis. Justino foi convocado a ir diante dos magistrados e foi julgado. O registro do seu julgamento é um daqueles que inspiram os filhos de Deus. A fidelidade e coragem que Justino mostrou é algumas vezes esmagadora para nós, que nada sabemos sobre o que significa sofrer pela
causa de Cristo.

Mas a história, escrita tanto tempo atrás, termina assim:

"Rusticus o prefeito [magistrado] pronunciou a sentença, dizendo: Aqueles que se recusaram a sacrificar aos deuses e a submeter-se ao comando do imperador que sejam açoitados e levados a sofrer a punição de decapitação, de acordo com as leis. Os santos mártires tendo glorificado a Deus, e tendo saído para o lugar habitual, foram decapitados, e aperfeiçoaram seu testemunho na confissão do Salvador. E alguns dos fiéis tendo secretamente removido seus corpos, os deitaram em um lugar
propício, a graça de nosso Senhor Jesus Cristo tendo operado juntamente com eles, a quem seja a glória para sempre e sempre. Amém."

*Logos é a palavra grega traduzida por Verbo em João capítulo 1 verso 1.


Por Herman Hanko - Retrato de santos fiéis