Literatura Gospel



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Jesus de Nazaré

Um pouco mais sobre Sua História

Mas quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho... (Gálatas 4.4).

Na extensa grinalda de terras ao redor do Mare Nostrum, do norte da África e da Espanha às costas da Ásia Menor, imperava a vontade da nova senhora do mundo: Roma. Após o desaparecimento dos grandes reinos semitas do Crescente Fértil, foi também a Palestina incorporada ao novo mundo e ao seu destino. As tropas romanas de ocupação faziam cumprir a vontade de Roma em uma terra governada e explorada por homens a seu serviço.

Cada vez mais a Grécia dava o seu cunho à vida no Império Romano; a cultura romana era, na realidade, cultura grega, e o grego era a língua universal que unia todos os povos subjugados do Oriente.

Quem viajasse pela Palestina naquela época, no começo da nossa era, teria a impressão de se encontrar na Grécia. Na Jordânia oriental havia cidades puramente gregas. As "Dez Cidades" dos Evangelhos (Mateus 4.25, Marcos 5.20, 7.31) pareciam-se com seu modelo, Atenas; tinham templos dedicados a Zeus e Ártemis, tinham o seu teatro, foro de colunas, estádio, ginásio e banhos. Gregas pela construção e pela vida de seus habitantes eram Cesareia, a capital de Pilatos, ao sul do Carmelo, no Mediterrâneo, e Sefóris, situada alguns quilômetros ao sul de Nazaré. Tiberíades, junto ao lago de Genesaré, Cesareia de Filipe, construída ao pé do Hermon, e até mesmo Jericó. Só as muitas cidadezinhas e localidades da Galileia e Judá haviam conservado o seu caráter arquitetural judaico. Nessas povoações genuinamente judias, viveu e atuou Jesus, e em parte nenhuma os Evangelhos dizem que ele se tenha detido numa cidade grega.

O traje grego e muito da maneira de viver dos gregos haviam entrado, entretanto, muito antes do tempo de Jesus, até mesmo nas comunidades puramente judias. Assim, os habitantes da Galileia e de Judá usavam vestes iguais às usadas em Alexandria, Roma ou Atenas. O conjunto consistia em túnica e manto, sapatos ou sandálias, chapéu ou capuz. Quanto ao mo-biliário, havia a cama, e fora adotado geralmente o costume grego de comer reclinado.

O Velho Testamento abrange, calculando da época da saída do Egito sob Moisés, um período de aproximadamente mil e duzentos anos, e, calculando do tempo dos patriarcas, cerca de dois mil anos. O Novo Testa-mento, ao contrário, abarca apenas um período de menos de cem anos. Desde o começo da atuação de Jesus Cristo até o fim dos Atos dos Apóstolos, o relógio do tempo marca apenas pouco mais de trinta anos. O Velho Testamento reflete em grande parte a história do povo de Israel; no Novo Testamento trata-se apenas da vida e ditos de uns poucos homens; ele gira inteiramente ao redor dos ensinamentos de Jesus, de seus discípulos e dos apóstolos.

A arqueologia não conseguiu encontrar inúmeros testemunhos do mundo do Novo Testamento, pois na vida de Jesus Cristo não houve nada que pudesse deixar vestígios materiais no nosso mundo, nem de palácios reais, nem de templos, nem de campanhas de conquista, nem de países e cidades incendiadas. Jesus era de natureza pacífica, ensinava a palavra de Deus. Os pesquisadores viram que sua tarefa de reconstrução do ambiente de Jesus consistia na descoberta dos lugares e povoações em que ele viveu, atuou e morreu. De qualquer modo, restava-lhes um guia sui generis. Nenhum acontecimento da história greco-romana, nenhum manuscrito de um autor clássico chegou à posteridade, nem de longe, em antigos exemplares tão variados como as escrituras do Novo Testamento. Seu número vai além de mil, e os mais antigos e dignos de crédito dentre eles datam de poucos decênios depois de Cristo.

Livro de genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão (Mateus 1.1).

Quem teve a pouca sorte de ler Houston Stewart Chamberlain — e isso aconteceu a milhões no decênio passado na Europa, sobretudo na Alemanha — poderia ser de outra opinião. Esse escritor, filho de um general inglês e genro de Richard Wagner, escreveu um livro que teve muitas edições: Os fundamentos do século XIX. Nesse livro, ele oferecia, entre outras coisas, a "descoberta sensacional" de que o pai de Jesus teria sido ariano! Chamberlain chegou até a apresentar "provas", baseando-se em "fontes históricas".

Tais provas existem? Que dizem elas? E de onde procedem?

Existe uma série de histórias. Procedem dos primeiros dois séculos da nossa era e foram contadas e difundidas por inimigos de Cristo, judeus e pagãos.

Repetidamente surge sobretudo um nome, representando um papel essencial. Também no Talmude, o mais importante livro religioso pós-bíblico do judaísmo, fala-se nele. Umas vezes é chamado "ben Pandera", outras "ben Pantera" ou "benha-Pantera".

Segundo uma narrativa transmitida oralmente, o pagão Celso teria ouvido o seguinte, textualmente, a um judeu, no ano 178: "Míriam foi repudiada pelo marido, carpinteiro de profissão, por ter-se convencido de que ela cometera adultério. Em sua vergonha, ela vagueou de um lugar para outro e deu à luz em segredo Jesus, cujo pai era um guerreiro chamado Panthera". No Talmude, mencionam-se os nomes "ben Pandera" e "Jesus Ben Pandera". No Talmude babilônio, fala-se de "Amante Pandera". Mais adiante lê-se: "Em Pumbedita dizia-se: S tath da, isto é, ela foi infiel ao marido" (Sabbat 104 b; Sanedrim 67 a).

"Pandera" seria um estrangeiro, um legionário romano.

Como surgiram tais afirmações?

Os cristãos referiam-se a Jesus como o "filho da Virgem". Os judeus aferraram-se a esse oportuno ponto de apoio, apoderando-se mais que depressa desse mistério para difamá-lo.

"Parthenos" em grego significa "virgem". A palavra "parthenos" foi falseada. Com escárnio, os judeus chamavam ao "filho da Virgem" "ben ha-Pantera", que na sua língua queria dizer "filho da pantera".
Com o correr do tempo, a origem dessa designação caiu no esquecimento. Os próprios judeus não sabiam mais que em seus próprios círculos Jesus era chamado com ironia pelo nome de sua mãe. Dessa maneira a palavra escarninha "Panthera" e, com ela, a narrativa tendenciosa adquiriram mais tarde um sentido completamente diverso.

Porque no Oriente um filho não usa o nome da mãe. É sempre chamado pelo nome do pai.

Conseqüentemente, "Pantera", ou "Pandera", foi tomado pelo nome do pai de Jesus. O nome da mãe de Jesus era bem conhecido. Ela se chamava "Míriam", Maria. "Pantera", ou "Pandera", não se conhecia como nome judeu. O homem que tinha esse nome devia ser, pois, um estrangeiro; de qualquer modo, um não-judeu. E que estrangeiros existiam no país quando Míriam deu à luz seu filho? A resposta a essa pergunta era muito fácil: romanos. Naquela época, a Judeia estava cheia de legionários romanos.
Essa aplicação e essa deturpação do nome "ben Pandera" veio, aliás, muito oportunamente em favor das tendências anticristãs dos judeus fanáticos. Dir-se-iam criadas para marcar Jesus como não-judeu.
À luz da pesquisa cristã e judaica também, só podemos concluir que H. St. Chamberlain, em sua tentativa para "provar" a origem não-judaica de Jesus Cristo, utilizou uma narrativa tendenciosa, que topou com histórias satíricas, com uma falsificação do Talmude babilônio. O mesmo se deu com Ernst Haeckel, autor dos Enigmas do universo.

Os Evangelhos chamam a Jesus, por sua origem, "filho de Davi". Isso é dito claramente e não deixa lugar para suposições de origem pagã. O apóstolo Paulo, grande missionário dos pagãos, e o evangelista Lucas, pagão de nascimento, por certo não veriam nenhuma desvantagem na origem pagã de Jesus e indubitavelmente se teriam referido a ela em alguma parte.

E, naqueles dias, saiu um edito de César Augusto, para que se fizesse o recenseamento de todo o mundo. Esse primeiro recenseamento foi feito por Cirino, governador da Síria. E iam todos recensear-se, cada um à sua cidade. E José foi também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi, que se chamava Belém, porque era da casa e família de Davi, para se recensear juntamente com Maria, sua esposa, que estava grávida (Lucas 2.1 a 5).

Os recenseamentos não foram de modo algum invenção dos estatísticos modernos. Desde os tempos mais antigos serviam, como hoje, a dois fins altamente prosaicos. Em primeiro lugar, forneciam os dados gerais para o serviço das armas e, em segundo lugar, para a cobrança de impostos. Nos países submetidos, Roma se interessava principalmente por estes últimos.

Sem os tributos estrangeiros, só com a produção própria, Roma não poderia ter o luxo de seus maravilhosos e imponentes edifícios e instalações, nem a vida de opulência e dissipação e seu dispendioso aparato administrativo mundial. Os soberanos de Roma podiam dar grátis ao povo, largamente, panem et circenses, pão e circo. O cereal para o pão grátis tinha de ser fornecido pelo Egito. E as grandiosas arenas para os jogos eram construídas por escravos e com dinheiro de tributos.

Originalmente, o "censo", termo oficial para o recenseamento, em uso na Roma antiga, era levado a efeito de cinco em cinco anos. Aliás, o quinquênio até passou para a poesia romana como "lustro", expressão muito em voga entre os autores romanos e amplamente empregada pelas pessoas das classes sociais mais elevadas. Contudo, devido a mudanças no sistema econômico e constitucional, considerando a introdução da isenção de impostos, a título de privilégio do cidadão romano, o censo deixou de ser feito, mormente nos dias agitados e difíceis dos fins do período republicano, quando não houve mais qualquer periodicidade baseada em lustros. Embora o Imperador Augusto reintroduzisse o censo, especialmente nas províncias, nem ele cogitou de restabelecer a antiga periodicidade quinquenal. É importante frisar esse ponto, por condicionar alguns aspectos relativos à datação do nascimento de Jesus Cristo.

"Cirino, governador da Síria", é o conhecido Senador P. Sulpicius Quirinius dos documentos romanos. O Imperador Augusto apreciava muito as extraordinárias aptidões, como militar e como administrador, desse homem, nascido em ambiente humilde perto de Tusculum, cidadezinha no monte Albano e vilegiatura das mais apreciadas pelas boas famílias romanas.

Cirino foi para a Síria como legado no ano 6 da nossa era. Com ele Roma mandou Copônio para a Judeia como primeiro procurador. Os dois realizaram um recenseamento do povo entre 6 e 7 d.C.. Porém, será que esse recenseamento era aquele mencionado no Evangelho Segundo São Lucas? Em primeiro lugar, Lucas menciona um edito imperial "para que se fizesse o recenseamento de todo o mundo" (Lucas 2.1), isto é, de todo o Império Romano, quando o censo dos anos 6 a 7 depois de nossa era tratou somente de um recenseamento regional. Ademais, àquela época Jesus já teria passado dos dez anos se, conforme o parecer de algumas pessoas, ele tivesse nascido no ano 6 ou 7 antes da era cristã. Todavia, de acordo com o relato bíblico, o recenseamento ordenado pelo Imperador Augusto teria acontecido por volta do ano do nascimento de Jesus Cristo.

Ter-se-ia enganado assim o médico Lucas?

Assim pareceu durante muito tempo. Só com a descoberta de um fragmento de inscrição romana em Antioquia se verificou, com surpresa, que Cirino já estivera antes na Síria como legado do Imperador Augusto e justamente no tempo do Procônsul Saturnino.

Dessa vez, aliás, Cirino estava incumbido de uma missão puramente militar. Comandou uma campanha contra os homonadenses, tribo das montanhas do Tauro, na Ásia Menor. Entre os anos 10 e 7 a.C., Quirino havia estabelecido sua residência e quartel-general na Síria. E de um censo geral do império, dos anos 7-6 a.C., a história de Roma não sabe mesmo absolutamente nada.


Por Werner Keller - E a Bíblia tinha razão