Literatura Gospel



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George Martin Ophoff

O Humilde Servo da Verdade

Introdução
Além de meus pais, os dois homens que tiveram a maior influência em minha vida foram meus dois professores no Protestant Reformed Seminary. Um deles foi o reverendo Herman Hoeksema e o outro foi o professor George Martin Ophoff. Do reverendo Hoeksema, aprendi Dogmática Reformada e como fazer exegese no Novo Testamento; do professor Ophoff eu aprendi a história da Igreja de Cristo e como fazer exegese no Antigo Testamento. Eles determinaram a natureza do meu ministério na Igreja de Cristo.

A maior parte do tempo em que eu estava estudando para o ministério, o seminário se reunia no porão da First Protestant Reformed Church da cidade de Grand Rapids, no estado de Michigan. A sala reservada para o seminário não tinha nada que a recomendasse como uma sala de aula favorável para estudos. O corpo de estudantes era pequeno. A biblioteca era quase inexistente. O seminário não tinha pessoal de apoio: sem secretaria, sem administrador, sem registro, sem chefes de departamento,
sem protocolos e fichários. Apenas dois professores e um punhado de alunos.

Eu não temo dizer que nós recebemos um dos melhores ensinos teológicos disponíveis neste país, se não no exterior. No entanto, esta declaração aparentemente ousada só será verdade se pesarmos o valor da educação teológica com base no fato de que a educação teológica se trata de aprender a pregar o Evangelho de Jesus Cristo, segundo as Escrituras e as Confissões Reformadas. Eu nunca quis estudar em outro lugar e, de fato, eu nem sequer pensei nisso. Eu nunca tive um momento de lamento pelo lugar onde eu estudei ter sido o sombrio "quarto do seminário" no porão da Igreja.

A única explicação possível de tudo isso é o fato de que os dois professores que nos ensinaram tudo o que nós sabíamos sobre teologia e pregação eram dois pregadores talentosos que estavam totalmente comprometidos com a fé reformada e a causa do nosso Senhor Jesus Cristo.

Por todo o mundo, não poderia haver dois homens que poderiam ser encontrados trabalhando juntos e que fossem tão diferentes um do outro. Isto foi em si mesmo um milagre da graça divina, de que os dois não apenas trabalharam juntos desde o início da história das Protestant Reformed Churches em 1924, até final da década de 1950 - um período de mais de trinta e cinco anos - mas eles o fizeram em unidade, harmonia, singeleza de propósito e igual devoção à causa de Cristo.

Eu já escrevi sobre o reverendo Herman Hoeksema. Agora a agradável tarefa de escrever sobre o reverendo George Ophoff espera por mim. É a história de um homem que eu respeitei muito e que aprendi a amar profundamente. Que o seu nome não seja esquecido por aqueles que amam a fé reformada. Eu escrevo estas linhas com gratidão a Deus pelo professor Ophoff.

Início de Sua Vida e Treinamento

George Martin Ophoff nasceu na cidade de Grand Rapids, no estado de Michigan, no dia vinte e cinco de janeiro de 1891. Ele era o mais velho dos oito filhos de Frederick H. Ophoff e Yeta Hemkes Ophoff. Frederick Ophoff trabalhava em uma fábrica de móveis no centro de Grand Rapids e de lá ele caminhava para economizar os cinco centavos da tarifa do bonde. O horário de trabalho era longo: das seis da manhã às cinco da tarde, seis dias por semana. O magro salário mal conseguia sustentar a
família e proporcionar instrução na escola cristã para as crianças.

A família vivia uma vida normal para uma família da segunda geração de imigrantes. As comunidades holandesas em Grand Rapids eram muito unidas e tinham a vida centrada na igreja. As igrejas eram compostas de imigrantes da Holanda, seus filhos e netos; e eles estavam espalhados por toda a cidade. Quase todos tinham raízes na Secessão, o movimento de Reforma na Holanda, que tinha sido iniciado por Hendrick De Cock. A primeira geração de imigrantes veio para Michigan, sob a liderança de Albertus C. Van Raalte.

De acordo com as tradições daqueles que pertenciam a este grupo específico de imigrantes holandeses, a família era devota e piedosa, disposta a se sacrificar pela causa do ensino cristão. Ophoff recebeu sua instrução na sua cidade, na Oakdale Christian School, e na Franklin Street e Oakdale Park Christian Reformed Churches.

Esta foi verdadeiramente uma instrução de acordo com o pacto, a qual o próprio Ophoff, por toda a sua vida, considerou uma grande bênção. Em seus últimos anos no Seminário, Ophoff costumava falar do que ele chamava "Gereformeerde Gevoelhoren", isto é, "o Sensor Reformado". Por esta expressão ele se referia a alguém que tinha um senso profundo do que estava incluído na fé reformada e uma habilidade para detectar infalivelmente aquilo que se opunha a ela. Ophoff acreditava firmemente que tal sentimento pelo que é verdadeiramente reformado só poderia ser adquirido através na instrução pactual dada aos filhos do pacto de Deus, na igreja, em casa e na escola.

Embora Ophoff não fosse um brigão, mas de um tipo mais solitário, ele ainda assim não fugia de uma boa briga, e ele era rápido para sair em defesa de alguém que estivesse sendo injusta ou cruelmente insultado no recreio, até mesmo se isto envolvesse uma batalha com seus amigos. Sua mãe se desesperava por causa das várias roupas destruídas com as quais ele chegava em casa - nos dias em que um par de calças e uma camisa eram usados durante toda a semana e eram lavados no sábado e vestidos novamente na segunda-feira. Ophoff tinha em sua mão direita um dedo indicador torto com o qual ele frequentemente gesticulava no púlpito e na sala de aula, o legado de uma briga na qual seu dedo foi quebrado.

Na época em que Ophoff se formou no ensino fundamental, ainda não existia ensino médio cristão. O Calvin College, organizado exclusivamente para a formação de professores e ministros, incorporou várias matérias do ensino médio em seu currículo.

Ophoff foi para esta escola com sua mentalidade firmada em ser um ministro do Evangelho. Ele se formou no ensino médio em 1909, com dezoito anos.

Preparação Para o Ministério

A partir desse ponto a educação de Ophoff foi repetidamente interrompida. Aparentemente, em parte, a razão foi por uma falta de recursos financeiros na família de Ophoff que o obrigou a abandonar a escola e procurar emprego em uma empresa de gelo local.

Outro evento alterou a sua vida de forma significativa. Entre os seus estudos universitários e trabalho do seminário, enquanto trabalhava na empresa de gelo, seu avô materno caiu e quebrou o quadril.

O avô de Ophoff, Gerrit Hemkes, nasceu e cresceu na Holanda, entrou no ministério das igrejas da Secessão liderada por De Cock e veio para os Estados Unidos. A princípio ele recebeu uma chamada estendida a ele pela Christian Reformed Congregation da cidade de Vriesland, em Michigan. Por causa de suas muitas habilidades, ele foi chamado para ser professor assistente no seminário em Grand
Rapids, onde ele serviu com distinção.

Visto que ele era um homem relativamente velho quando quebrou seu quadril, George foi enviado por seus pais para a casa de seu avô, para viver com ele e cuidar dele.Ophoff nunca mais voltou para sua própria casa.

Deus tem Seu propósito em todos os nossos sofrimentos, tristezas e decepções. Assim foi neste caso. Por causa dos cuidados do seu neto, o professor Hemkes pode permanecer em sua casa até sua morte. Mas George também beneficiou-se. Foi Hemkes quem o incentivou a retornar à escola, quem o ajudou com seus estudos e ofereceu um lugar tranquilo para George prosseguir os seus estudos. Além disso, Hemkes, um homem muito talentoso, foi capaz de dar a George muita instrução e um amor profundo e duradouro pela fé reformada.

Em 1918, aos vinte e sete anos de idade, George entrou para o Calvin Seminary. Dois acontecimentos destes anos devem ser registrados.

O primeiro foi uma tragédia na família de Ophoff. O pai de George foi fatalmente ferido em um incêndio que começou em seu local de trabalho. Embora ele tenha escapado do edifício quando este começou a queimar, ele voltou correndo para dentro do prédio para resgatar um relógio muito precioso que ele havia deixado na prateleira em seu departamento. Uma explosão tornou em pedaços aquela parte do edifício e Frederick Ophoff ficou gravemente queimado. Ele morreu no mesmo dia, com cinquenta e dois anos, deixando uma viúva e oito filhos.

O segundo incidente também foi algo revelador em relação ao entendimento de Ophoff sobre teologia. Como um dos requisitos do curso, foi prescrito para ele um trabalho a respeito da "graça comum", uma questão em debate nas igrejas. Ele teve muita dificuldade em lidar com o trabalho, principalmente devido ao fato de que ele não podia adaptar-se aos ensinamentos atuais sobre a graça comum no corpo orgânico do pensamento reformado. Isto parecia conflitar com toda a verdade que ele conhecia
da herança reformada.

Finalmente, em completo desespero, ele decidiu abordar o assunto tratando do mesmo como uma doutrina contrária à Escritura. Sem saber das questões acerca do caráter bíblico desta doutrina que já haviam aparecido em alguns lugares na igreja, e usando a negação da graça comum apenas como uma "tese de trabalho", ele descobriu que a sua abordagem resolvia todos os seus problemas. Usando suas próprias palavras, "De repente, a luz se acendeu", e todas as peças começaram a se encaixar. O trabalho se tornou fácil de escrever.

Qualquer que tenha sido a reação de seu professor a este trabalho, Ophoff se tornou particularmente convencido de que a graça comum era contrária à Escritura e às Confissões Reformadas, muito antes da controvérsia se tornar pública nas igrejas. Essa convicção permaneceu inalterável durante toda a sua vida.

Durante seus anos de seminário, George conheceu e casou-se com Jane Boom, com quem teve quatro filhos. Deus lhe deu uma esposa que realmente foi uma auxiliadora adequada para ele. Ela era uma bela mulher e de um caráter incrível. Nascida em um lar reformado e criada na fé reformada, ela se dedicou totalmente ao seu marido. Ela veio a ser seu apoio e incentivo em anos extremamente difíceis que estavam por vir.

Devido ao avô de Ophoff, professor Hemkes, ainda estar vivo, o casal recém-casado foi morar com ele. George e Jane se casaram em agosto de 1920, e em dezembro de 1920, o professor Hemkes morreu.

Em maio de 1921, George se formou no seminário, e em janeiro de 1922, ele assumiu as responsabilidades de seu primeiro pastorado em uma igreja cristã reformada na cidade de Riverbend, em Michigan. A congregação é atualmente a Hope Protestant Reformed Church na cidade de Walker, e tem o seu santuário dentro de um longo bloco onde ficava a antiga igreja.

O Trabalho Pastoral de Opoff

George Ophoff foi ordenado para o ministério da Palavra e sacramentos no dia vinte e seis de janeiro de 1922, na Hope Christian Reformed Church durante o culto da noite. A congregação já existia desde 1916, embora nunca tivesse tido um pastor. Ela pertencia ao presbitério de Grand Rapids West, e estavam recebendo a pregação do presbitério e dos professores e alunos do seminário. Esta era uma congregação rural, contando entre trinta e trinta e cinco famílias, das quais a maioria trabalhava na fazenda.

De muitas formas e de muitos pontos de vista, os pontos fortes de Ophoff não eram bem utilizados nos aspectos pastorais do ministério. É sempre uma maravilha que Deus dê soberanamente a cada homem seus dons e habilidades, que o lugar específico de cada homem dentro da igreja seja determinado por Deus, e que os dois combinem tão perfeitamente. Rapidamente ficou evidente que os dons e as habilidades de Ophoff estavam no ensino.

Ele era um professor vigoroso nas aulas no catecismo, embora geralmente não conseguisse lembrar todos os nomes de seus alunos e eles podiam facilmente "enganá-lo", lendo as respostas para as perguntas que eles deveriam supostamente memorizar, sem que eles se desse conta disso.

No entanto, Ophoff era extremamente interessado no bem-estar espiritual das crianças, um bem-estar que se enraizava - cria ele - em um completo entendimento da fé reformada. Após Ophoff ter sido deposto do ministério na Christian Reformed Church - embora ele continuasse a ser ministro na Hope Protestant Reformed Church -, ele chegou ao conhecimento de que um pregador local, ministro da Christian Reformed Church estava tentando convencer alguns dos aprendizes de Ophoff a assistirem o catecismo da sua igreja. A solução de Ophoff para este problema foi levar a sua classe de catecismo inteira para a casa do ministro "proselitista" e continuou, diante da sua classe, a instruir o ministro local sobre o erro da graça comum e na necessidade das crianças aprenderem a fé reformada contra este erro pernicioso.

O mesmo vigor de Ophoff era notório em suas pregações. Sua pregação, especialmente no Velho Testamento, era poderosa, reformada, única e emocionante.

Ele podia trazer toda a congregação, incluindo as crianças, para a vida e história dos santos descritos na Escritura. Ele podia desdobrar de uma maneira inesquecível, as riquezas do Cristo crucificado como a salvação do povo de Deus em todas as eras.

Mas Ophoff raramente foi pontual para qualquer coisa - uma fraqueza que o atormentou toda a sua vida. Preocupados com a congregação os presbíteros muitas vezes iniciavam o culto e o ministro apareceria em algum momento durante os atos preliminares da adoração.

Principalmente depois de 1924, a vida de Ophoff ficou incrivelmente difícil, no momento em que ele tentou combinar em tempo integral, os cuidados de uma congregação com as pesadas responsabilidades de ensino no seminário - quando o currículo completo estava sobre apenas dois homens. A consequência foi que seus sermões não foram sempre tão cuidadosamente preparados como eles seriam se ele tivesse tempo suficiente para gastar com eles, muitas vezes ele não conseguia terminar um sermão no tempo previsto e não era incomum que ele concluísse um sermão que ele havia começado no culto da manhã, no culto da tarde.

Às vezes Ophoff podia repreender membros que haviam pecado individualmente do púlpito da congregação, e embora sua condenação do pecado fosse severa e inflexível, nem sempre tinham o toque do amor de um pastor pelas ovelhas. Devido aos boletins serem desconhecidos e o ministro ser requerido para ler os anúncios, muitas vezes Ophoff se envolvia na árdua tarefa de encontrar o pedaço de papel correto, contendo os anúncios, entre um amontoado de pedaços de papel encontrado em
todos os bolsos do seu casaco.

Jacó era seu personagem favorito da Bíblia - aquilo que Ophoff chamaria de "sua personalidade favorita". Ele admitia que isso era verdade porque ele se via em Jacó, o que ilustrava de forma tão vívida e de tal maneira a eleição e graça soberana que origina um santo a partir de uma pessoa extremamente miserável. Devido aos seus sermões serem preenchidos com ilustrações, simplicidade, praticidade e expressões tiradas da vida cotidiana, até mesmo hoje, aqueles que o ouviram pregar lembram-se de muitos de seus sermões e os pontos que ele estava fazendo neles.

Após a controvérsia sobre a graça comum, que foi a ocasião para o início da Protestant Reformed Church, o reverendo Ophoff foi pastor por dezesseis anos em Byron Center, Michigan. Em parte por causa da polêmica na congregação, a igreja foi dissolvida e Ophoff pôde dedicar todo o seu tempo em seu trabalho no seminário. Seu trabalho na congregação depois disso foi limitado a um serviço fiel e dedicado no cargo de presbítero na First Protestant Reformed Church.

A Deposição de Ophoff

Desde o início, George Ophoff esteve envolvido em eventos que levaram à formação da Protestant Reformed Church. Apesar desta igreja não ter sido formalmente estabelecida até janeiro de 1925, o reverendo Ophoff se juntou à equipe da Standard Bearer em outubro de 1924, e escreveu o seu primeiro artigo na edição de novembro.

Que foi intitulado "A Declaration" - "Uma Declaração" -, e destinava-se a explicar sua atitude:
"E assim segue que, eu, abaixo assinado, sou do grupo de edição deste periódico. O fato de eu concordar em servir na equipe editorial do Standard Bearer equivale a um reconhecimento de minha parte de que eu também rejeito os pontos de vista e concepção das coisas que o conceito da graça comum defende. Para mim é absolutamente impossível aderir aos princípios embutidos no conceito da graça comum e manter relações amigáveis com a Escritura."

Escrever para o Standard Bearer e escrever nesta linguagem foi um ato de coragem gerado pela fé. Os tempos eram conturbados e perigosos. Poucos meses antes, em junho, o Sínodo da Christian Reformed Church tinha adotado uma declaração quanto a graça comum que fez da doutrina um dogma oficial na igreja. Enquanto o sínodo não exigia a disciplina daqueles que discordavam da sua decisão, muitos começaram a tomar atitudes para livrar a igreja de todos aqueles que ousavam expressar divergências a respeito do que o sínodo disse. Ophoff devia saber que tal escrito acabaria causando problemas para ele.

E assim foi. O reverendo Herman Hoeksema foi disciplinado em dezembro de 1924, pelo presbitério de Grand Rapids East. O presbitério de Grand Rapids West fez o mesmo em janeiro. Uma leitura da ata de ambos os presbitérios mostrará que os mesmos homens que buscaram o afastamento de Hoeksema não descansaram até que Ophoff também fosse colocado para fora da igreja. O material apresentado pelo
422presbitério de West foi quase o mesmo que apareceu no de East. Desde o primeiro dia da reunião ficou óbvio que os presbitérios não tinham se reunido como um órgão deliberativo para discutir as questões, elas tinham um propósito em mente, ou seja, livrar a igreja de uma vez por todas de qualquer um que discordasse dos pronunciamentos do sínodo. Elas tinham uma questão para perguntar a Ophoff: você subscreverá os três pontos da graça comum, ou não?

A exigência chegou para Ophoff pela insistência do presbitério a fim de que o consistório de Ophoff confrontasse seu pastor com essas exigências. A mensagem dizia:

"Caros Irmãos,

O presbitério de Grand Rapids West, por meio deste, exige que vocês requeiram do seu ministro:
1. Que ele se declare de forma inequívoca se ele concorda plenamente, sim ou não, com os três pontos [da graça comum] do Sínodo de Kalamazoo.

2. Uma promessa incondicional de que quanto aos três pontos, ele se submeterá - com o direito de apelar - aos padrões confessionais da igreja conforme interpretado pelo Sínodo de 1924, em outras palavras, nem publicamente, nem em particular recomendará, ensinará ou defenderá, seja por pregação ou por escrita, qualquer sentimento contrário aos padrões confessionais da igreja conforme interpretado pelo Sínodo de 1924, e no caso de um apelo, que nesse meio tempo, ele concordará com
o julgamento que já foi aprovado pelo Sínodo de 1924.

Além disso, o presbitério requer que vocês forneçam ao presbitério às dez horas da manhã de quarta-feira do dia vinte e um de janeiro de 1925, uma resposta definitiva do seu pastor por escrito pelo duplo requerimento do consistório."

O presbitério removeu a resposta detalhada do consistório de Hope e passou a destituir o reverendo Ophoff e os seus presbíteros das suas funções. Um diácono também foi destituído enquanto outro concordou com a graça comum.

Do ponto de vista terreno os resultados foram desastrosos. Ophoff foi destituído de seu cargo, assim como os seus presbíteros, a congregação foi reduzida a um pequeno grupo de aproximadamente sete ou oito famílias; o movimento inteiro contava apenas com três ministros e três congregações; todos os parentes de Ophoff 423permaneceram na Christian Reformed Church, e o que tinha sido uma família muito unida, foi dilacerada pela divisão.

Mesmo assim, Deus usou esta situação aparentemente sem esperança para trazer a reforma para sua igreja. A graça comum é um desvio incoerente da Escritura e das confissões reformadas e a introdução de heresia mortal dentro da igreja. A deposição de ministros fiéis era um pecado terrível. Ophoff estava determinado a permanecer fiel à Escritura e ao seu Deus. Nada mais importava. Na época da sua deposição, a Grand Rapids Press publicou uma edição com a manchete: "Ophoff Prefere a Morte".

A referência era a uma afirmação que Ophoff tinha feito na sala de reunião do presbitério no decorrer do processo. Ele tinha informado ao presbitério que ele preferia ser morto do que a assinar os três pontos. O parágrafo da Grand Rapids Press relatou as palavras de Ophoff:

"Sr. Presidente, se você me colocasse diante de uma arma para ser fuzilado ou colocasse diante de mim os três pontos para aderir, eu escolheria o primeiro. Eu não posso assinar os três pontos. Se eu o fizesse, estaria rasgando a Bíblia em pedaços. Eu estaria pisoteando a Palavra. Eu estaria batendo na face de Deus."

Não foi uma ostentação vã e vazia. A verdade era mais importante para ele do que a sua própria vida. A coragem de suportar sozinho, como muitas vezes fizeram os santos antes dele, era uma coragem gerada por uma fé inabalável de que a causa de Cristo sempre tem a vitória.

Ophoff como Professor

Desde o início da Protestant Reformed Church, um seminário foi estabelecido e operado com a firme convicção de que a sobrevivência da nascente denominação dependia da formação dos seus próprios ministros. E assim, além de seu trabalho pastoral, Ophoff começou a dar aulas de História da Igreja e Antigo Testamento no seminário. Embora o seminário não pôde começar a se comparar com outros
seminários em questões como instalações, organização, tamanho do corpo de estudantes e prestígio, o simples fato é que o seminário revelou ministros que eram muito superiores aos de outros seminários do país quanto a capacidade de pregar e pastorear a Igreja de Cristo. Embora o aspecto acadêmico do treinamento fosse bom, o sucesso do seminário foi sem dúvida devido à profunda espiritualidade dos seus professores.

Eu considero uma dádiva de Deus, um grande privilégio na vida que o Senhor me deu, que eu pudesse estudar sob a orientação do professor Ophoff e de Hoeksema. Esta foi a parte da educação do seminário que foi melhor do que qualquer coisa obtida em outro lugar. Eu olho para trás, para aqueles anos com gratidão.

Sou compelido a olhar para este aspecto do trabalho de Ophoff da minha própria perspectiva, porque foi no seminário que eu o conheci melhor.

No primeiro ano que eu frequentei o Seminário, a escola era bastante grande, com alunos da Protestant Reformed Church, jovens interessados ​e estudantes universitários que frequentavam diversos cursos como ouvintes, estudantes da Holanda, e do presbitério de Eureka das igrejas reformadas alemãs. Após a polêmica de 1953, o número de alunos foi reduzido significativamente.

Minha primeira impressão, formada já naqueles anos, e que continua até o presente, é a enorme dedicação de Ophoff pela causa, uma dedicação que ficou evidente especialmente em sua boa vontade em sacrificar quase todos os bens terrenos e a sua posição pela causa da verdade. Essa imensa dedicação deixou uma marca permanente.

Minha segunda impressão foi que a nossa educação era a do mais alto calibre possível. Isto era verdade até mesmo sob o ponto de vista acadêmico. Ophoff, por exemplo, nos ensinou a gramática e leitura hebraica. Ele ensinou isto profunda e exaustivamente. Nós não poderíamos ter aprendido isto melhor em qualquer outro lugar. Nós tivemos que estudar, e tivemos que estudar arduamente. Foram muitas as noites sem dormir e o trabalho foi rigoroso. Nós tivemos bons cursos.

A educação foi especialmente boa porque era completamente a partir da perspectiva da Escritura e das confissões. Ophoff tinha compreensões que eram únicas e poderosas. Nos estudos do Velho Testamento ele revelava para nós a história de Israel de uma maneira que não poderia ser aprendida em qualquer livro. Ele não dependia do que os outros diziam, ele não usava as mesmas anotações antigas repetidamente, ano após ano. Ele era estimulante, vigoroso, original, perspicaz e interessante. Em História da Igreja, ele nos mostrou algo que eu nunca havia aprendido em todos os meus tempos de colégio: a diferença espiritual fundamental entre a Reforma e o Renascimento, o que criou uma antítese nítida entre eles. E este é apenas um exemplo.

Minha terceira impressão era de que Ophoff foi desorganizado em grande parte da sua vida. Devemos lembrar que a carga de trabalho que ele carregava era enorme e as obrigações eram muitas e variadas. A absorção de Ophoff em um determinado assunto em um dado momento o envolvia de tal maneira que frequentemente ele estava alheio ao que acontecia ao redor dele. No entanto, ele não era um homem que reivindicava organização como sua força. O seu quarto de estudo era um lugar desorganizado para qualquer um que entrasse - embora parecesse que ele sabia muito bem onde estava tudo. Suas anotações eram desorganizadas de uma maneira que ninguém mais poderia usá-las. Seu ensino era desorganizado e os alunos costumavam brincar que nós ficávamos mais no monte Sinai do que os filhos de Israel.

Nós nunca cobrimos toda a matéria. O relógio, que controlava o começo e o fim dos períodos de aula, não existia para ele. Tenho certeza que teríamos tido a mesma aula a manhã inteira se nós não o lembrássemos do tempo. Mas nós recebemos dele insights que foram fundamentais, aprendemos perspectivas e métodos de trabalho que eram distintamente reformados; fomos submetidos a um homem, cuja concentração em um determinado assunto era total em todo momento, e muitas vezes nós não poderíamos deixar de ser movidos por uma dedicação espiritual que estava acima de tudo. Se mais tarde em nossas vidas, tivéssemos que continuar nossos estudos em assuntos que apenas começamos a ver com ele no seminário, nós descobriríamos que nos tinha sido dado o ponto adequado e que o caminho foi cuidadosamente traçado para que jamais nos perdêssemos. E que, afinal, isso é o
que importa.

As mesmas características apareceram nos escritos de Ophoff. Ele escreveu esboços de estudo para uso em sala de aula e escreveu periódicos para o Standard Bearer.

Mas o que era verdadeiro sobre seu ensino era igualmente verdadeiro sobre sua escrita. Durante meus anos de seminário, no tempo em que eu trabalhava na fábrica de impressão onde era impresso o Standard Bearer, o material de Ophoff estava sempre atrasado. Sua máquina de escrever sempre precisava de uma nova fita. Seu manuscrito era tão editado por lápis ou caneta que era difícil de ler. Setas direcionando de uma para todas as outras partes do manuscrito, pedaços cortados ou
corte de páginas, páginas renumeradas, pedaços de papel colados em outras páginas - tudo isto fez o alinhamento dos seus artigos no linotipo um verdadeiro desafio.

Seus escritos eram repletos de insights surpreendentes no texto original da Sagrada Escritura e verdades magníficas desenvolvidas longamente em uma retórica movimentada. Mas a organização era uniformemente pobre e a escrita incrivelmente prolixa e detalhada.

Seus escritos permanecem uma parte preciosa de nossa herança. Mas alguém precisa selecionar seus melhores trabalhos e editá-los através de um rigoroso processo de redução. As igrejas reformadas poderiam se beneficiar grandemente de tal trabalho.

Ophoff, O Polemista

O profundo compromisso com a verdade da Escritura leva à guerra, pois não são muitos os que amam a fé com fogo e paixão. Ophoff lutou pela fé reformada.

Ele já fazia isto na época em que a Protestant Reformed Church se originou. Frequentemente ele escrevia num estilo polêmico, pois ele via banalidade, tolice, discussão sem substância e os mais altos ataques críticos contra a Escritura vindo de muitos escritos de homens que afirmavam ser reformados,. Contra tudo isso, ele se enfureceu com veemência.

Em 1953, Ophoff liderou a luta quando a teologia condicional ameaçou invadir as igrejas. Ele foi o primeiro a detectar nas igrejas um "espírito" diferente daquilo que havia caracterizado a sua denominação no seu início. Quando o Dr. Klaas Schilder veio da Holanda para os Estados Unidos, Ophoff viu o que a maioria não viu, que a visão do pacto de Schilder estava em desacordo com a visão desenvolvida em nossas igrejas. Schilder promoveu um pacto bilateral e condicional e Ophoff viu que
tais ensinamentos estavam diretamente em conflito com as verdades da graça particular e soberana.
Na verdade, quando Hoeksema insistiu para que Ophoff fosse cauteloso e retirar as acusações contra um ministro - Hubert De Wolf - da First Protestant Reformed Church, Ophoff persistiu em manter as acusações, e essas acusações finalmente se tornaram o motivo para a suspensão de Wolf do seu ofício. Quando defensores de dentro da Protestant Reformed Church escreveram abertamente com aprovação de
um pacto condicional, a defesa que Ophoff fez da fé reformada foi vigorosa e inflexível.

Ao mesmo tempo, Ophoff nunca atacou ninguém pessoalmente. Ele escreveu contra falsos pontos de vista, e muitas vezes ele o fez em fúria controlada, de tal forma que seus inimigos ficavam furiosos. Mas era contra a heresia o que ele escrevia, não contra pessoas. Frequentemente ele era um profeta a quem poucos ouviriam.

Ainda assim, seu trabalho foi extraordinariamente importante, pois foi usado por Deus, não só para derrotar uma tentativa calculada para conduzir a igreja em uma direção diferente daquela que ela estava indo, mas também para desenvolver as verdades que se tornaram o coração da fé reformada como ensinado na Protestant Reformed Church.

Os Últimos Dias de Ophoff

427A valente defesa da fé que levou à divisão na Protestant Reformed Church em 1953 foi a última batalha da Ophoff. Era como se Deus tivesse preservado ele para isso e quando a gritaria e o tumulto se extinguiram e a paz retornou, o trabalho de Ophoff acabou.

Já antes da divisão em 1953, Ophoff deu entrada no hospital para uma cirurgia de estômago. Embora a cirurgia tenha sido bem-sucedida, os médicos avisaram que ele teria que aliviar sua carga de trabalho. Ele nunca o fez. Uma vida inteira de trabalho desenvolveu um hábito que não poderia ser quebrado.

No verão de 1958, enquanto o reverendo e a senhor Ophoff estavam retornando de um período de férias no Canadá, ele sofreu um derrame, na cidade de Toledo, no estado de Ohio. Ele foi levado de ambulância para Grand Rapids, mas este foi o fim de seu trabalho. Embora ele tenha se recuperado de alguns dos efeitos do derrame, ele progressivamente perdeu a visão. Embora fosse possível que ele pensasse em teologia e compreendesse a teologia que outros liam para ele, já não era mais possível ler e escrever.

Em fevereiro de 1962, o reverendo e a senhora Ophoff foram transferidos para uma casa de repouso. Uma semana antes de morrer, o reverendo Ophoff foi movido para Pine Rest Christian Hospital. Ele morreu no dia doze de junho de 1962, e um pouco mais de dois anos após, sua esposa o seguiu para a glória. Foi pouco mais de três anos antes de seu colega, o reverendo Hoeksema, ir para sua recompensa eterna.

Conclusão

George Ophoff tinha cerca de um metro e setenta e cinco centímetros de altura, e era relativamente bem proporcionado. Embora ele certamente tenha ganho peso em seus últimos anos, ele nunca foi excessivamente pesado. Ele tinha uma dignidade natural em sua atitude, na expressão de seu rosto e na sua cabeça de cabelo branco. Ele era um homem bonito, mas ele era completamente alheio a isso. Seus olhos, por detrás da armação de ferro do óculos, eram afiados e penetrantes. Sua cabeça era grande e o seu queixo lembrava o de um bulldog, de modo que toda a sua aparência era de tenacidade e coragem.

Por um lado, Ophoff podia ser surpreendentemente indiferente a sua aparência e muitas vezes ele veio para a escola parecendo amassado e despenteado - na maioria das vezes, porque ele tinha estado em seu gabinete a noite toda. Sua esposa teve um período difícil para mantê-lo apresentável. Porém, em certos momentos, ele podia ser espantosamente preocupado com sua roupa. Se nós comentássemos que a gravata que ele estava usando não combinava com seu terno, ele nunca mais usaria a combinação. E sua esposa se empenhou na tentativa de manter ele limpo, camisas e ternos nitidamente passados.

Uma característica marcante da sua vida foi sua mansidão. Nós muitas vezes pensávamos em Moisés quando pensávamos em Ophoff. A Sagrada Escritura diz, que Moisés foi o homem mais manso sobre a terra. Nós pensávamos que Ophoff vinha em segundo lugar. Sua mansidão foi expressa não apenas em a sua total dedicação para a glória de Deus, mas em sua boa vontade de trabalhar a vida inteira, com seus dons notáveis, à​ sombra de Herman Hoeksema - e fazer isso sem uma palavra de reclamação ou um pingo de ciúme. Ophoff nunca recebeu o reconhecimento que lhe era devido, e seus grandes dons frequentemente passavam despercebidos. Mas os feitos de um homem são anotados no céu e há registros que são mantidos com precisão infalível para que Deus possa recompensar seus servos no devido tempo.
A relação entre Ophoff e Hoeksema foi única. Eles trabalharam juntos por mais de trinta e cinco anos no seminário e na obra das igrejas. Eles eram tão diferentes como é possível duas pessoas serem. No entanto, eles trabalharam em harmonia e conformidade, com uma causa e propósito em comum. Eles não tinham nada além de respeito um pelo outro. Cada um chamava o outro sempre por seu sobrenome.

Entretanto, como aconteceu com Moisés, aquela mansidão podia algumas vezes ser dissipada por uma explosão de temperamento feroz e fúria violenta, apesar de que o que mais frequentemente provocava isto, fosse um ataque contra a verdade. Mas se ele errasse com alguém, Ophoff seria o primeiro a pedir desculpas, pedir perdão, e se expressar com sincero pesar por sua má conduta.

O seu esquecimento é lendário e permanece até hoje o assunto de conversas amorosas que se voltam para o seu trabalho nas igrejas. Porém esse esquecimento era muitas vezes o fruto da total absorção naquilo que estava ocupando seus pensamentos no momento. Sua concentração era total. Pessoalmente testemunhei evidências disto, mais de uma vez. No decorrer de uma assembleia eclesiástica, uma
proposta seria vigorosamente discutida, uma discussão na qual Ophoff entraria. Mas enquanto Ophoff estava refletindo sobre as consequências da proposta, ela seria aprovada e a assembleia passaria para outro assunto. De repente, ele saltaria de pé e pediria a palavra para debater a proposta recentemente aprovada. Ele nunca reparava no curso da maioria, e se a questão era importante, ele não percebia o que mais estava acontecendo no grupo enquanto se afundava em seus próprios pensamentos.

Ophoff tinha uma tenacidade que se mostrou de forma notável. Ele podia ser implacável na busca das consequências lógicas de uma proposição, ele conseguia permanecer no ponto como um bulldog quando os outros o abandonavam; ele podia 429manter uma posição contra todos. Mas foi essa mesma persistência que lhe possibilitou ser o servo ajustado de Cristo que ele foi na defesa da fé. No entanto,
quando ele se convencia de que estava errado em seu pensamento, ele era rápido para admitir, pois ele era acima de tudo fiel à Palavra.

Enquanto tão frequentemente ele parecia estar completamente alheio a tudo o que se passava ao seu redor, ele tinha uma visão penetrante da natureza humana e dos acontecimentos da história. Ele me ensinou coisas sobre os poderes do pecado, sobre o caráter humano como depravado e salvo e relacionamentos na vida que eu nunca vou esquecer.

No segundo capítulo do livro de Juízes lemos que quando Josué e toda a sua geração morreram, "levantou-se outra geração após eles, que não conhecia o Senhor, nem tampouco a obra que ele fizera a Israel" - verso dez. Essa é a maneira da Escritura de introduzir a triste história dos juízes. A geração que conduziu a Protestant Reformed Church às maravilhosas verdades da Escritura que são nossa herança morreu e foi recolhida junto aos seus pais. Deverá surgir outra geração que não conhece o Senhor? Que Deus não permita isso.


Por Herman Hanco - Livro Retrato de Santos Fiéis