Literatura Gospel



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Feedback no casamento

Como superar as dificuldades em dar e receber feedback?

O casamento une duas pessoas com características diferentes. Mas isso não é prejuízo; é lucro.

"Quando marido e mulher olham as coisas de pontos de vista diferentes, isso pode ajudar muito, pois dá uma perspectiva mais ampla."1 Por isso, as características devem ser reconhecidas, respeitadas e valorizadas. Mas os cônjuges têm também defeitos que devem ser identificados e corrigidos.

Por serem duas pessoas diferentes, marido e mulher estão sempre dando e recebendo feedback.

Mas o que é feedback?

Feedback é uma palavra da língua inglesa que significa realimentação.

Quando um grupo está cantando ou executando instrumentos com auxílio de aparelhos eletrônicos de amplificação, algumas caixas de som são colocadas perto do grupo para dar o retorno. Ouvindo aquelas caixas, o grupo pode saber como o som está chegando ao auditório. Eles saberão se a tonalidade está mais grave ou mais aguda; se o volume está mais alto ou mais baixo; e assim por diante. Estas informações são o feedback.

Nas ciências sociais, feedback significa a comunicação a uma pessoa ou grupo, no sentido de fornecer-lhe informações sobre como sua atuação está afetando outras pessoas. Essa comunicação resulta num processo de dar e receber ajuda para a manutenção ou para a mudança de comportamento. O feedback é aquele retorno que você consegue captar observando o efeito que as suas palavras, ações ou postura estão produzindo nas pessoas. "Fomos criados como seres comunicantes.

E estamos sempre nos comunicando. Os cientistas calculam que entre 50 e 100 informações são trocadas a cada segundo entre indivíduos que se comunicam ativamente. Jackson e Lede rer registram: Tudo o que uma pessoa faz em relação a outra é uma forma de mensagem. Não existe falta de comunicação. Até o silêncio representa comunicação. Por meio de palavras, gestos, toque, olhar, tom de voz, sobrancelhas levantadas, um sorriso e o silêncio, a comunicação é enviada e recebida".2

Marido e mulher estão sempre dando e recebendo feedback.

As Dificuldades de Dar Feedback

O nosso feedback às vezes não é bem recebido porque nós não o damos de forma correta. Entre as dificuldades que nos prejudicam ao darmos feedback, citaremos as seguintes:

1a) Pretensão de superioridade - Quando transmitimos ao nosso cônjuge a ideia de que nós nos sentimos mais inteligente, mais competente ou mais hábil do que ele, o feedback que lhe damos fica prejudicado. Paul Tournier, grande psiquiatra evangélico, dá como exemplo o que pode ocorrer com um marido que esteja enfrentando dificuldade em seu escritório.

Na primeira vez em que menciona o problema para sua mulher, ela, levada por excessivo zelo de ajudá-lo. replica mui apressadamente: "Você precisa livrar-se, de qualquer jeito, daquele funcionário ineficiente. Defenda-se de pé, senão ele passa por cima de você! Quantas vezes eu já lhe disse que você é muito fraco! Conte isso na gerência!...". Em outras palavras, ela faz chover sobre ele conselhos inaplicáveis. Tal mulher não reconhece a complexidade dos problemas que seu marido tem de enfrentar. Por sua vez, ele sente que ela o responsabiliza por todos os seus problemas, e o trata como se fosse um menino. O marido começa a desvendar as suas ansiedades, mas, em face de respostas engatilhadas como aquelas, se retrai. Sua esperança é destruída antes que possa mostrar à sua esposa todos os aspectos de um problema delicado. A intenção dela era excelente, mas estragou tudo, respondendo apressadamente demais.3

Neste exemplo, a esposa passou ao marido a ideia de que ela se sente mais competente do que ele.

Quando isso acontece, o cônjuge se fecha, porque se sente humilhado e até ultrajado.

2a) Individualismo - Se o nosso cônjuge entender que estamos querendo que ele aja como nós agiríamos se estivéssemos em seu lugar, ele se sente desrespeitado em sua individualidade e não recebe o nosso feedback.

3a) Pressão - Se o nosso cônjuge não se mostrar receptivo, corremos o risco de partir para a pressão. As vezes falamos mais do que devíamos. Envolvemos outras pessoas em nossa conversa. E tudo isto só faz aumentar a resistência do nosso cônjuge.

4a) Polêmica - É muito comum o cônjuge assumir uma atitude defensiva diante do feedback que lhe damos. Isto pode nos levar a pressioná-lo com argumentos, gerando assim uma polêmica radicalizada. E esta pode ir longe...

"Como o abrir-se da represa, assim é o começo da contenda; desiste, pois, antes que haja rixas" (Provérbios 17.14).

As Dificuldades de Receber Feedback

Receber feedback também não é fácil. Podemos mencionar aqui os seguintes motivos:

1a) Falta de humildade - Não é fácil admitir nossos erros, ineficiência e incompetência. E isto nos dificulta receber o feedback.

2a) Falta de confiança - Às vezes não confiamos suficientemente na competência ou nas intenções de nosso cônjuge, e isto nos impede de receber corretamente o feedback que ele nos dá.

3a) Resistência a julgamento - Podemos entender o feedback como um julgamento dos nossos atos e sentir que nossa individualidade está sendo desrespeitada.

4a) "Síndrome de avestruz" - Para escapar de um predador, a avestruz costuma esconder a cabeça e deixar o resto à mostra. Algo semelhante pode nos acontecer quando percebemos a necessidade de mudança em nosso comportamento. Em vez de acatar o feedback, costumamos reagir defensivamente parando de ouvir, negando a validade do feedback, agredindo o nosso cônjuge, apontando também os seus defeitos.

Como Superar as Dificuldades de Dar e Receber Feedback

O feedback sempre existirá. As nossas palavras, ações e comportamento são sentidos pelo nosso cônjuge. E este naturalmente reage. Nós também reagimos diante da atuação do nosso cônjuge. Mas nem sempre o feedback produz resultados positivos. Algumas vezes isto acontece por falta de habilidade de quem dá o feedback; outras vezes, por falta de receptividade de quem é alvo do feedback.

Precisamos superar as dificuldades de dar e receber feedback. Para isto devemos observar as seguintes recomendações:

1a) Desenvolver o desejo de compreender - Paul Tournier afirma o seguinte: "A primeira condição para conseguir compreender é o desejo de compreender".4 A sabedoria popular diz a mesma coisa com palavras diferentes:

"O pior cego é aquele que não quer ver; e o pior surdo é aquele que não quer ouvir". Às vezes não damos ou não recebemos feedback corretamente porque não temos o desejo sincero de compreender o nosso cônjuge. E todo ser humano anela ser compreendido.

2a) Avaliar corretamente a importância das coisas - Às vezes não damos ou não recebemos corretamente o feedback porque as nossas exigências são altas demais. John e Betty Drescher afirmam que "na geração passada, as expectativas para o casamento não eram muito mais do que estabelecer-se, manter uma vida econômica, ter vários filhos e gozar a vida juntos". Mas hoje a situação é diferente.

"Até os maneirismos ou hábitos que não se notam nos amigos e conhecidos casuais, em geral assumem uma importância desproporcional e provocam extremo aborrecimento quando praticados por nosso companheiro." Eles apontam a solução, dizendo: "O casal mais feliz é aquele que consegue manter um senso de proporção sobre a importância relativa dos acontecimentos e atos".5

3a) Dominar as reações emocionais defensivas -Algumas pessoas possuem um exagerado senso de autodefesa. Estão sempre numa posição defensiva. Parece que Caim tinha essa marca em seu caráter. Quando Deus lhe perguntou: "Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso sou eu tutor de meu irmão?" (Gênesis 4.9). Esse exagerado senso de autodefesa dificulta o recebimento do feedback. Ao receber o feedback, devemos examinar minuciosamente as nossas falhas, em vez de nos colocar na defensiva.

4a) Desenvolver a habilidade no trato com o cônjuge - A Bíblia ensina que "a morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto" (Provérbios 18.21). O feedback pode matar ou dar vida ao casamento.

Quem não gosta de um elogio sincero? Quem gosta de ser criticado? Para dar corretamente o feedback, precisamos desenvolver a nossa habilidade no trato com o nosso cônjuge.

5a) Ser realista - Às vezes queremos transformar o nosso cônjuge em outra pessoa. Sonhamos com um tipo de esposa ou marido, e queremos que o nosso cônjuge seja a pessoa de nossos sonhos. Nesse caso, o feedback que damos ao nosso cônjuge terá uma forte dosagem de rejeição. John e Betty Drescher afirmam o seguinte: "Se estivéssemos começando de novo nosso casamento, tomaríamos a decisão de viver e amar o parceiro real que temos, e não o imaginário com que sonhamos".6

6a) Manter um relacionamento de confiança recíproca - A falta de confiança na competência ou nas intenções do cônjuge é um grande obstáculo à troca de feedback. Por isso, marido e mulher devem manter um relacionamento de confiança recíproca. Para isso é necessário que cada um tenha o cuidado de não emitir opinião apressada, especialmente sobre assuntos de que não entende o suficiente para opinar. É necessário também fazer uma purificação das intenções, pois temos uma extraordinária capacidade de comunicar até aquilo que não queremos. E o nosso cônjuge percebe logo se as nossas intenções não são as melhores. Quando há entre os cônjuges um relacionamento de confiança recíproca,
o feedback será corretamente dado e corretamente recebido.

Conclusão

Existe uma constante intercomunicação entre as pessoas. Tudo aquilo que dizemos ou fazemos causa um efeito no nosso cônjuge. E este reage imediatamente. A reação pode ser de alegria ou tristeza, de dor ou prazer, de satisfação ou indignação. É este retorno que chamamos de feedback. Ele ajuda o
nosso cônjuge a manter ou mudar o seu comportamento. Por isso precisamos estar atentos, para que o nosso feedback seja dado e recebido corretamente. "Se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha?" (1 Coríntios 14.8).

Para Refletir

O cônjuge mais feliz é aquele que aprendeu a amar o parceiro real, e não aquele imaginário dos seus sonhos.

1 John & Bctty Drescher, Começar de Novo, p. 36
2 John & Betty Drescher, op. cit., p, 28
3 Paul Tournier, in Felicidade no Lar, p. 30
4 Paul Tournier, op. cit, p. 27
5 John & Betty Drescher, op. cit, p. 47 e 48
6 John & Betty Drescher, op. cit, p. 49


Por Adão Carlos Nascimento - Oficina do Casamento