Literatura Gospel



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Antônio

Asceta Entre os Ascetas

Introdução

Alguns homens da Igreja de Deus pertencem ao rol de heróis da fé apenas porque seu testemunho, embora errôneo em alguns aspectos, é importante.

Assim foi Antônio e os ascetas.

A estranha conduta dos ascetas, só pode ser compreendida à luz do pensamento teológico da época em que viviam. Já no terceiro século da história da igreja, erros estavam presentes no pensamento dos teólogos concernente a salvação pela graça.

Era considerado por alguns, que a salvação acontecia, pelo menos em parte, através de nossas próprias obras. Devemos lembrar que as verdades da graça soberana na obra da salvação, não foram desenvolvidas na igreja até a controvérsia de Agostinho com o pelagianismo e semipelagianismo no quinto século. Embora em geral, a igreja certamente sustentasse a verdade da salvação pela graça, o lugar das obras na salvação - um sério problema que tem perturbado a igreja até hoje - não estava
claramente entendido.

A prática do ascetismo foi enraizado em uma interpretação errônea das palavras de nosso Senhor que ordenava os discípulos a venderem tudo que tinham e darem aos pobres, e das palavras de Paulo que é melhor não casar-se. Pegando estas instruções como regras de conduta na igreja, muitos reconheceram que era impossível a todos os membros da igreja seguirem estes preceitos da Escritura sem que a igreja deixasse de existir; no entanto, eles continuaram a considerá-los mandamentos autoritativos.

Para resolver o problema, muitos começaram a pensar em termos de uma “moralidade de dois níveis”. O nível mais baixo era para a maioria do povo de Deus.

Eles mantinham suas possessões, casavam-se e tinham filhos. Mas também havia um nível de moralidade superior. Aqueles que escolhessem viver neste nível, viviam em um plano elevado de santidade e consequentemente obteriam mais graça de Deus. Este nível elevado era a vida de pobreza e celibato que muitos aspiravam.

Juntamente com isso, estava a noção de que, de uma maneira especial, os nazireus na Escritura tinham feito um protesto eficaz contra a apostasia e mundanismo na igreja, por afastarem-se da vida da nação de Israel como um todo e por negarem a si mesmos muitos dos confortos da vida.

Então, quando a igreja no início de sua história desfrutou uma certa pausa da perseguição, tornando-se mundana e carnal, surgiram homens que tentaram protestar contra este mundanismo, afastando-se da igreja e da sociedade para viver a vida de um asceta.

Pensava-se ser adquirido duas coisas por tal conduta: um protesto eficaz contra o crescente mundanismo, e a obtenção de uma moralidade elevada, a qual ganharia uma graça especial de Deus.
O fundador do ascetismo foi Antônio.

Início da Sua Vida

Antônio nasceu no ano de 251 d.C. no Egito, era filho de pais ricos que deixaram todas as suas posses para ele. Estas posses consistiam em trezentos acres de terras férteis no Delta do Nilo . Mas de acordo com as palavras do Senhor ao jovem rico, Antônio vendeu todas as suas posses, deu o dinheiro aos pobres e retirou-se para o deserto a fim de viver na solidão. A única exceção que ele fez na distribuição do dinheiro aos pobres, foi uma pequena soma que foi deixada à parte para sua irmã, a qual havia sido confiada aos seus cuidados por seus pais.

Sua Vida Ascética

Para vencer as tentações da carne, Antônio se engajou em atos severos de auto negação. Por um tempo ele viveu em uma caverna, então em uma casa em ruínas. Os últimos anos de sua vida foram gastos em uma montanha que ficava cerca de sete horas do Mar Vermelho. Ele vestia apenas um cilício e negava a si mesmo tudo, exceto as necessidades básicas de comida e bebida. Sua comida consistia de pão e
sal, e de vez em quando algumas tâmaras. Ele comia apenas uma vez por dia, geralmente depois do pôr do sol. Ele sentia vergonha de precisar até mesmo disso.

Portanto, dias de jejum eram completamente intercalados com os dias de dieta escassa. Ele dormia sobre o chão bruto ou em um palete de palha, mas geralmente ele nem sequer dormia, ao invés disso, ele gastava seu tempo em oração noite afora.

Seu guarda-roupa inteiro consistia em uma camisa, uma pele de carneiro e um cinto.

Nos anos posteriores ele raramente tomava banho, pensando, talvez, que a sujeira era similar a piedade. Ele gastava seu tempo lutando contra tentações por meio da oração e meditação na Escritura. Philip Schaff, baseado na biografia de Antônio feita por Atanásio, escreve sobre essas lutas:
“Os conflitos com o diabo e suas legiões de demônios eram, como com outros santos solitários, uma parte relevante na vivência de Antônio, e perdurou durante toda sua vida. O diabo aparecia para ele em visões e sonhos, ou até mesmo à luz do dia, de todas as formas possíveis, ora como um amigo, ora como uma mulher fascinante, ora como um dragão, tentando-o por meio de lembranças de sua antiga riqueza, de sua família nobre, do cuidado para com sua irmã; por promessas de riquezas, honra e
fama; expondo a dificuldade da virtude e a facilidade da imoralidade; por pensamentos impuros e imagens; por terríveis ameaças dos perigos e castigos da vida asceta. Uma vez ele [o diabo] golpeou o eremita tão violentamente, Atanásio conta, que um amigo, que lhe trazia pão, o encontrou no chão aparentemente morto. Em outro momento ele [o diabo] rompeu a parede de sua caverna e encheu o lugar com leões rugindo, lobos uivando, ursos rosnando, hienas ferozes, serpentes se rastejando e
escorpiões; mas Antônio corajosamente virou-se em direção aos monstros, até uma luz sobrenatural romper do telhado e dispersá-los.”

Apenas duas vezez, ao longo da vida asceta de Antônio, ele realmente saiu de seu isolamento. As duas vezes, por causa de sua vestimenta esfarrapada, aparência magra e fantasmagórica, ele causou uma forte impressão nos cristãos e pagãos.

A primeira vez que ele saiu foi durante um tempo de perseguição, quando ele apareceu, foi quase como Elias no passado, para obter para si a coroa do martírio.

Ele fez tudo o que pôde para opor-se aos perseguidores. Ele visitou os cristãos nas minas e prisões; discutiu com juízes na corte; acompanhou mártires à forca para encorajá-los; defendeu a causa deles em todas as oportunidades. Mas ninguém encostou a mão nele e ele foi forçado a recuar novamente para o deserto.

A segunda vez que ele apareceu foi durante o debate ariano, quando ele tinha cem anos de idade. Ele discutiu a favor de seu amigo Atanásio e contra os arianos, declarando que a heresia ariana era pior que o veneno de uma serpente e de nenhuma forma, melhor que o paganismo, que adorava a criatura em vez do Criador.

Quando solicitado a permanecer em Alexandria, ele recusou: “Como um peixe fora d’água, assim um monge morre fora de sua solidão”.

Por meio de seu exemplo, ele atraiu milhares à vida monástica. Outros milhares, embora aparentemente incapazes de imitar seu estilo de vida, reuniram-se em sua caverna para visitá-lo e buscar suas orações. A fim de alimentá-los nas ruínas uivantes do deserto, ele cultivava um grande jardim de onde contava ter expulsado feras por meio da Palavra de Deus. Milagres foram atribuídos a ele, pensava-se que suas orações tinham uma eficácia incomum. Ele rejeitava qualquer tipo de instrução:
“Aquele que possui uma mente sã não tem nenhuma necessidade de instrução”.

Antônio morreu no ano de 356, com a idade de cento e cinco anos, após retirar-se para sua caverna com dois discípulos os quais levou consigo para que o enterrassem em um lugar desconhecido. Atanásio nos concede suas últimas palavras: “Não deixe que eles levem meu corpo para o Egito, a fim de que não o guardem em suas casas. Uma de minhas razões em vir a esta montanha foi para impedir isto. Você sabe que eu nunca reprovei aqueles que fizeram isto e nunca ordenei que acabassem com esse costume.
Portanto, enterrem meu corpo na terra, em obediência a minha palavra, a fim de que ninguém saiba o lugar, exceto vocês. Na ressurreição dos mortos meu corpo será restaurado para mim incorruptível pelo Salvador.

Distribuam minhas vestes da seguinte forma: deixe Serapion, o bispo, ter as outras peles de carneiro, quanto ao cilício, fique para vocês. E agora, meus filhos, adeus; Antônio está indo e não mais estará convosco.”

Outros Ascetas

Seu exemplo foi seguido por milhares, alguns os quais foram muito além de seus exageros. Uns, reunidos em colônias, nunca falavam uns com os outros, exceto no sábado e domingo. Hilarion nunca comia antes do pôr do sol. Ele cortava seu cabelo apenas uma vez por ano e envolvia-se em orações, canções de salmos, recitações bíblicas e fazendo cestas. Alguns se recusavam a sentar ou deitar, permanecendo em pé por dias a fio e dormindo inclinados sobre uma rocha. Outros permitiam-se ficarem
cobertos com picadas e mordidas de formigas nas areias do deserto. E ainda outros bebiam apenas a água que poderia ser recolhida do orvalho que ocasionalmente caia.

Talvez os mais estranhos de todos foram os Estilistas, que viviam em pilares. A seita foi fundada por Symeon o qual viveu por trinta e seis anos em um pilar a sessenta pés de altura. Ainda um outro gastou sessenta e oito anos no topo de um pilar, recusando descer, obtendo pedaços de comida e gotas de água erguidos para ele por uma multidão perplexa. No calor escaldante, sob o sol cruel, encharcados por aguaceiros, fustigados pelo vento, suportando o frio implacável das noites, esses estranhos homens buscaram caminhos ainda mais estranhos para santidade.

Os ascetas foram os fundadores do monasticismo que se espalhou rapidamente na região ao norte mediterrâneo e então na Europa. Este monasticismo continua na Igreja Católica Romana até hoje, embora tenha sido duramente condenado pelos reformadores no século XVI, os quais perceberam seus males. O caminho para a santidade não é o estranho caminho dos ascetas.

É entre dois extremos que o fiel filho de Deus deve encontrar seu caminho. De um lado ele se esconde dos perigos de uma vida monástica, de outro a constante ameaça do mundanismo. O mundanismo destrói a igreja; mas o ascetismo destrói a alma.

Nosso Senhor disse de maneira bem específica, que embora seus filhos não sejam do mundo, ainda assim eles estão no mundo. Eles não foram chamados a unirem-se com o mundo, mas eles também não estão sendo fiéis ao seu Senhor fugindo do mundo.

Enfim, fugir do mundo é impossível, pois nós carregamos o mundo em nossa carne - mesmo se fugirmos para uma caverna, um pilar, uma cela fria e úmida de um monastério ou uma duna árida em algum deserto distante. A luta contra o mundo é mais difícil no campo de batalha da nossa carne - assim como os eremitas e monges aprenderam. Na verdade, tal fuga do mundo em desobediência a Cristo torna ainda mais difícil a batalha contra o mundo em nossa própria natureza.

Este mundo é o mundo de Deus. Ele está destinado a ser redimido e glorificado. Deus ama Sua criaturas e “tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças” - 1 Tm 4:4. É um pecado grave tratar o mundo com desdém, desprezá-lo, é como um tapa na cara de Deus.

Ser um cidadão da cidade celestial não é desculpa para o nosso desprezo para com o mundo de Deus; ao contrário, isso nos impulsiona em nosso chamado de usar o mundo de Deus para buscar as coisas que são do alto. A luta para alcançar santidade nasce pelo poder santificador do Espírito Santo, tem continuidade na luta dia após dia para alcançar obediência em nosso chamado diário na vida, e tem sua vitória certa na fé; pois a fé é a vitória que vence o mundo.


Por Herman Hanko - Retrato de santos fiéis