Literatura Gospel



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Anselmo

O Arcebispo da Cantuária

Introdução

A Idade Média, a partir do tempo de Agostinho, bispo de Hipona, até o tempo da grande Reforma, foi um período de escuridão espiritual. A Igreja Católica Romana era a governante suprema da Europa. É difícil encontrar a verdadeira igreja durante a maior parte deste turbulento período. É provavelmente sobre este período, juntamente com outros, que a Confissão Belga refere-se no Artigo XXVII: "E sua santa Igreja é preservada e suportada por Deus, contra a fúria do mundo inteiro; embora ela as vezes - por um tempo - pareça bem pequena, e aos olhos humanos, esteja reduzida ao nada: como durante o perigoso reinado de Acabe, o Senhor guardou para Si sete mil homens, que não ajoelharam-se à Baal."

Em nossa discussão sobre os homens ilustres da igreja, é difícil encontrar homens sobre quem escrever neste período, que foram genuinamente homens de Deus, ou seja, homens que defenderam com firmeza a verdade e que representaram a causa de Deus sem adições das errôneas práticas e heresias do catolicismo romano. Em suma, houveram poucos, se algum, que fossem em todos os aspectos, fiéis à Palavra de Deus.

Portanto, se tratando de homens deste período, temos de lidar com homens que carregavam consigo o fardo do erro papista. Mas, apesar disso, eles foram homens que, por uma razão ou outra, foram homens ilustres na história da igreja, ou que foram representantes de diversas linhas de pensamento nos dias em que viveram. Teremos de tolerar seus erros.

Anselmo, o arcebispo da Cantuária, era um desses homens.

Início de Sua Vida

Anselmo nasceu em 1033 em Aosta, no norte da Itália, à sombra dos altíssimos Alpes. Sua mãe, Ermenberga, era uma mulher piedosa e temente a Deus, que deu ao seu filho o ensinamento espiritual, uma vez que isso era importante para a educação religiosa de uma criança nascida na igreja. Seu pai já era outro assunto. Chamado Gundulf, ele era um homem nobre, completamente mundano e rude, que tentava dominar a vida dos outros e que não tinha compaixão nem dó no tratamento para com seus conhecidos. Ermenberga viveu com o "Nabal" de sua época. A insensibilidade espiritual de Gundulf mudou quando ele estava em seu leito de morte; e pouco antes de morrer ele tornou-se um monge a fim de escapar, se possível, dos tormentos do inferno.

Parece que Anselmo, desde sua juventude, era um garoto sensível e de alguma forma inclinado ao misticismo, o qual se deleitava em contemplar os altos cumes das montanhas em seu jardim como um meio para trazê-lo mais perto de Deus. Em suas próprias palavras, embora não tivesse ainda quinze anos, ele buscava "moldar sua vida segundo Deus".

Isso logo o colocou em um conflito tão violento com seu pai, que ele saiu de casa para nunca mais voltar, e fugiu para Normandia, na França, longe ao norte e oeste. Lá ele encontrou o que tanto ansiava e tornou-se um monge no monastério dominicano em Bec. Foi a graciosa providência de Deus que o levou para lá, pois ele veio a ser, sob a influência do grande Lanfrac, um dos mais ilustres homens de sua época. Lanfrac era o prior, ou cabeça governante, do monastério. Ele tomou Anselmo sob suas asas, para dar-lhe a educação que o prepararia para o chamado de sua vida.

Sua Vida Como um Monge

Quando Lanfrac deixou a França para se tornar arcebispo da Cantuária na Inglaterra, Alselmo foi nomeado prior no lugar de Lanfrac. A reputação de Alselmo como um erudito, um homem de intelecto brilhante, um teólogo de grande estigma e ainda um homem gentil e amável, já havia capturado a atenção dos líderes da Europa. Ele serviu como prior em Bec de 1078 a 1092. Durante este período ele escreveu muitas de suas obras.

Em 1092, ele também foi chamado à Inglaterra, onde sua reputação o precedeu. Ele foi a pedido do conde de Chester, o qual desejava o socorro de Anselmo em sua enfermidade. Anselmo não ficou ocioso na Inglaterra, mas gastou seu tempo organizando o Monastério de São Werburg em Chester. Porém, depois de um ano, Lanfrac morreu e Anselmo foi nomeado, mais uma vez, para o lugar de Lanfrac; mas desta vez como arcebispo da Cantuária. Ele tomou esta posição com grandíssima relutância pois o arcebispado da Cantuária era o posto eclesiástico mais alto da Inglaterra, e toda a responsabilidade pelo bem-estar da igreja cairia sobre seus ombros. Ele foi ordenado para este ofício no dia quatro de dezembro de 1093 e serviu ali por dezesseis anos, até sua morte no dia vinte e um de abril de 1109. Ele serviu com excelência, e tem sido lembrado na história como um dos grandes homens da
igreja da Idade Média.

Nós precisamos tentar reviver um pouco a pessoa de Alnselmo.

Professor e Pastor

Há muitas diferentes facetas de seu caráter. Anselmo era um homem amável, visualmente mais parecido com sua mãe do que com seu pai. Esta ternura foi demonstrada em seu amor por animais. A história conta que enquanto ele era arcebispo da Cantuária, ele estava montado em seu cavalo de Windsor, quando um coelho achou refúgio de seus caçadores sob seu cavalo. Ele desceu de seu cavalo em
lágrimas, pegou o coelho tremendo, e repreendeu asperamente os caçadores, comparando o estado do coelho com o estado de um homem morrendo que teme o tormento da punição por vir. Anselmo não era um grande pregador; sua força estava em seu estudo, ensino e orientação aos aflitos. Ele conseguia entrar na mente de seus alunos, antecipar e responder as perguntas que eles não ousavam fazer. Ele mantinha uma disciplina que era sábia e justa. Quando um companheiro do monastério reclamou que por mais que ele batesse, ele não conseguia aprimorar seus meninos, Anselmo respondeu: "Você já tentou não bater neles?" Ele certamente estava além de seu tempo na educação, e era um dos mais populares professores de seus dias.

Desde que Anselmo entendeu os problemas das lutas espirituais contra o pecado e a dúvida, ele foi capaz de aconselhar almas atribuladas que buscavam sua ajuda. A estes, ele dava conselhos, elogios, conforto, repreensão e carinho. Ele manteve uma vasta correspondência na qual sempre era compreensível e amável, porém firme, quando necessário. A um aflito monge ele escreveu: "Dos maus feitos, nós devemos nos arrepender e abandoná-los antes de morrer: a fim de que o dia não nos encontre neles. Mas quanto as boas obras, nós devemos perseverar até o fim, para que nelas,
nossas almas sejam alimentadas a partir da vida."

Anselmo também era dado às obras de misericórdia. Seu grande deleite era cuidar dos doentes nos hospitais de sua época e tomar conta dos pobres. A única coisa que o irritava era a ganância e a imoralidade de seus companheiros monges.

Ele era um homem extremamente moderado, que suportava facilmente as loucuras de seus companheiros. A história conta que no Sínodo de Rockingham em 1095, durante um período de implacável controvérsia entre os delegados, Anselmo foi pego dormindo com um sorriso no rosto.

O Homem da Igreja

Anselmo encontrou-se profundamente envolvido na controvérsia da investidura na Inglaterra. Embora esta controvérsia tenha sido complicada, abrangendo muitos séculos, suas questões básicas são facilmente compreensíveis. Muitos do alto clero da igreja papista eram também senhores feudais, que administravam extensas propriedades. O papa queria controlar o clero, algo que ele somente conseguiria fazer se possuísse o direito de ordenar o clero para os cargos. Por outro lado, os reis da Europa também queriam ordenar o clero, pois este mesmo clero era composto por governantes seculares que governavam sob a autoridade do rei.

O ponto principal, como é normalmente o caso, era dinheiro. Tanto os papas queriam que o dinheiro fosse para dentro dos cofres de Roma, quanto os reis queriam que o dinheiro viesse para o tesouro real. Logo, assim como hoje em dia, o amor ao dinheiro foi a raiz de todos os males.

Como membro leal da igreja, Anselmo fez o que pôde para frustar as ações de William Rufus - o filho pródigo de William, o Conquistador - e Henry I, ambos que insistiam no direito de ordenar o clero. Em sua lealdade ao papa, ele foi forçado a fugir da Inglaterra em duas diferentes ocasiões a fim de salvar sua vida. Parte de seu mandato como arcebispo foi gasto em exílio na França.

O Teólogo

Anselmo também era um pensador de grande estigma. Ele é, na verdade, frequentemente chamado de "o pai dos escolásticos". Enquanto muitos de sua época colocavam a razão antes da fé, Anselmo seguiu o ditado: a fé precede o conhecimento. "Eu não busco por conhecimento" ele escreveu "a fim de que eu creia, mas eu creio para que eu entenda, pois disso estou certo, que, se eu não cresse, eu não entenderia". Certamente neste aspecto, ele estava no caminho certo. Mas ele nem sempre foi fiel ao seu próprio compromisso.

Anselmo é o pai da, assim chamada, prova ontológica para a existência de Deus. Na tentativa de provar a existência de Deus através da razão, ele argumentou que todos os homens têm uma ideia em suas mentes do "mais perfeito ser". Não obstante, então ele argumentou, aquele que é o mais perfeito ser, precisa existir de fato, bem como em pensamento. Uma vez que Deus é o mais perfeito ser, Deus precisa existir. Os filósofos por séculos lutaram contra esta "prova" da existência de Deus, e esforços estavam constantemente sendo feitos para mostrar o erro de Anselmo. Além de toda a questão, se a prova de Anselmo é sólida ou não, o fato é que, como cada filho de Deus sabe, Deus é tão formidável que Ele está fora do alcance da prova humana. Ele é Deus. Apenas se pode conhecer e acreditar nEle através da fé.

Em toda a Idade Média, quase nenhum avanço foi feito com relação à verdade da Escritura. Anselmo se destaca como uma exceção. Se ele não for digno de nosso respeito por nenhuma outra razão, nós devemos reconhecê-lo por sua doutrina do sacrifício expiatório de Cristo. Ele levou esta verdade muito além do que qualquer coisa que a igreja houvera confessado antes de seu tempo. Ele desenvolveu sua visão em um importante livro chamado Cur Deus Homo? - Por que Cristo se Tornou Homem?. Ele respondeu sua própria pergunta, argumentando que a encarnação e expiação de nosso Senhor Jesus Cristo foram necessárias por causa da justiça de Deus. Não precisamos ir a fundo em seus argumentos aqui, pois isto foi substancialmente retomado por nosso próprio Catecismo de Heidelberg no quinto e
no sexto dia do Senhor . Ler estas seções, é ler um breve resumo do argumento de Anselmo. Sua grande compreensão sobre estas verdades tornaram-se parte da herança confessional das Igrejas Reformadas.

O Santo Atribulado

Anselmo escreveu muitas meditações e orações. É esclarecedor lê-las. Sendo um discípulo de seu tempo, ele direcionava suas orações à Maria e a muitos outros santos. Elas são repletas de profunda compreensão do pecado, da luta que o cristão experimenta em sua batalha contra o pecado e de seu desejo por perdão e santidade. Elas exalam um espírito de genuína devoção e piedade.

E ainda há uma característica das orações de Anselmo que não pode escapar à atenção do leitor: ele nunca alcançou a segurança. Ele nunca alcançou conforto e paz.

Sempre buscando, nunca alcançando, ele continuou perdido no que é praticamente um desespero sombrio sem esperança. Damos aqui algumas citações de seus escritos.

Em uma oração ao santo João, o Evangelista. Anselmo orou assim:

"Jesus, contra quem tenho gravemente pecado, Senhor, a quem tenho perversamente desprezado.
Deus onipotente, cuja ira tenho despertado com meu orgulho; Tu és o amado de João, seu abençoado apóstolo, E a ele, o seu aterrorizado acusado foge.

Seu pecador, seu ofensor, por maior que seja sua malvadeza, Por mais que seja grande sua desgraça,
Mantenha o nome de seu amado. Entre ele e a sentença ameaçadora de Seu justo julgamento. Por meio daquele abençoado amor, poupe aquele que busca a proteção de João.

Senhor, por qual nome você terá misericórdia dos pecadores se você condenar alguém que ora em nome de seu amado? Senhor, sob qual abrigo há proteção, se sob o nome de seu amado há punição? Onde existe refúgio, se junto a seu amado há perigo? Senhor, não sinta ódio por aquele que foge para seu amado.

Senhor, não deixe minha iniquidade auxiliar para condenação [...]." Ou, novamente, em uma oração ao São Nicolau: "Mas se Deus desprezar-me, quem irá favorecer-me? Se Deus virar seu rosto para mim, quem olhará para mim? Se Deus me odiar, quem ousará falar a meu favor? Oh Deus, misericordioso e compassivo, Tu realmente repeles alguém que retornaria a Ti, de modo que não possas suportar ser misericordioso com aquele que se apega a Ti? Tu amaldiçoarás alguém que que tem Te entristecido
tanto que Tu não ouvirás nenhum de seus amigos em seu favor?"

Isto é instrutivo e ainda inevitável. Dentro do contexto do pensamento papista, o verdadeiro conforto está além do alcance do pecador, pois ele precisa merecer paz com Deus através de suas próprias boas obras. Isto tudo nos faz lembrar das grandes lutas de Lutero. Dentro do catolicismo romano, o conforto é impossível.

O desespero destas orações destaca a grandeza do Evangelho da Reforma que caiu como um trovão na Europa. Nós temos, os reformadores insistiam, um Evangelho que traz paz para o povo de Deus. Nós temos conforto. Você consegue imaginar o grande poder, sobre as multidões desesperadas da Europa, daquela simples pergunta e resposta com a qual nosso Catecismo de Heidelberg inicia? "Qual é o teu único conforto na vida e na morte? Que eu pertenço [...] ao meu fiel Salvador Jesus Cristo."

Isso é tudo. Isso é o suficiente. No entanto, Anselmo nunca veio a conhecer o que é isso.


Por Herman Hanko - Retrato de Santos Fiéis