Literatura Gospel



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A bíblica “Ur dos caldeus”

Atualmente, Ur é uma estação de estrada de ferro, cento e oitenta quilômetros ao norte de Baçorá, perto do golfo Pérsico.

Uma estação na estrada de ferro de Bagdá — A torre escalonada de tijolos — Ruínas com nomes bíblicos — Os arqueólogos procuram os sítios citados na Sagrada Escritura — Um cônsul armado de picareta — Um arqueólogo no trono da Babilônia — Expedição ao Tell al Muqayyar — Livros de história arrancados dos escombros — Recibos de impostos gravados em barro — Abraão era cidadão de uma metrópole?

Tomou, pois, Terah a seu filho Abraão e a Ló, seu neto, filho de Haran, e a Sarai, sua nora, mulher de Abraão, seu filho, e fê-los sair da Ur dos caldeus (Gênese 11.31).

... e fê-los sair da Ur dos caldeus. Assim soa a lenda aos ouvidos dos cristãos há quase dois mil anos. Ur, um nome tão misterioso e lendário como os numerosos e desnorteantes nomes de reis e chefes guerreiros, de reinos poderosos, de templos e palácios recobertos de ouro de que nos fala a Bíblia. Ninguém sabia onde ficava Ur. A Caldeia ficava, sem dúvida, na Mesopotâmia. Há trinta anos, ninguém podia imaginar que a busca da Ur bíblica fosse conduzir à descoberta de uma cultura que penetra no crepúsculo dos tempos pré-históricos, distante mais ainda que os mais antigos testemunhos humanos do Egito.

Atualmente, Ur é uma estação de estrada de ferro, cento e oitenta quilômetros ao norte de Baçorá, perto do golfo Pérsico, uma das muitas estações da célebre estrada de ferro de Bagdá. O trem regular faz uma breve parada nessa estação ao romper da aurora. Quando se extingue o ruído das rodas do trem, que continua em seu trajeto para o norte, o viajante que aí desembarca é envolvido pelo silêncio do deserto.

Seu olhar desliza pela monotonia pardo-amarelada de intermináveis planícies de areia. É como se se encontrasse no meio de um prato raso, riscado apenas pelos trilhos da via férrea. Um único ponto altera a vastidão ondulante e desolada: iluminado pelo sol nascente, avulta no meio do deserto um imenso toco vermelho-fosco, o qual apresenta profundas mossas como se fossem produzidas por um titã.

Para os beduínos é bem familiar esse morro solitário em cujas fendas, lá no alto, fazem ninho as corujas. Eles o conhecem desde tempos imemoriais e chamam-no Tell al Muqayyar, “Monte dos Degraus”. Seus ante¬passados levantavam suas tendas junto dele. Parece que desde tempos incalculáveis ele oferece abrigo acolhedor contra as perigosas tempestades de areia. Junto dele acampam ainda hoje os beduínos com seus rebanhos, se uma temporada de chuva faz a erva brotar súbita e milagrosamente do solo.

Outrora — há quatro mil anos —, ondulavam nessa região vastos campos de trigo e cevada, até onde a vista podia alcançar estendiam-se culturas de hortaliças e bosques de palmeiras e figueiras. Eram culturas imensas, que podiam comparar-se, sem exagero, às lavouras de trigo cana-denses e às plantações de legumes e frutas californianas. O luxuriante ver-dor dos campos e terraços era atravessado por um sistema de canais e fossos retilíneos, obras-primas da arte de irrigação. Já em plena idade da pedra os peritos sabiam aproveitar as águas dos grandes rios, desviando com habilidade e inteligência o precioso líquido de suas margens e trans-formando, assim, regiões desertas em lavouras de vegetação paradisíaca.

Nesse tempo, quase escondido por bosques de palmeiras umbrosas, passava nesse local o Eufrates. Esse grande prodigalizador de vida era portador de um intenso tráfego naval até o mar. Naquele tempo, o golfo Pérsico penetrava muito mais para dentro pelas embocaduras do Eufrates e do Tigre. Já antes de ser construída a primeira pirâmide do Nilo, o Tell al Muqayyar se erguia imponente em seu posto. Quatro enormes cubos, de quase vinte e cinco metros de altura, se erguiam uns sobre os outros, diminuindo gradualmente, recobertos de ladrilhos de cores maravilhosas. Sobre o negro da base quadrangular, de cerca de quarenta metros de lado, os escalões superiores, ornados de árvores, eram vermelhos e azuis. O último escalão formava um pequeno terraço, em cima do qual, coberto por um teto dourado, havia um santuário.

O silêncio reinava sobre esses lugares dedicados ao culto, onde os sacerdotes oficiavam no sacrário de Nannar, o deus da Lua. Os ruídos de uma das mais antigas cidades do mundo, a rica metrópole de Ur, mal chegavam até lá.

Em 1854, dirigia-se para o solitário morro vermelho uma caravana de camelos e jumentos com uma carga incomum de pás, picaretas e aparelhos de medição, sob a direção do cônsul inglês em Baçorá, J. E. Taylor. que não estava ali por espírito de aventura nem, tampouco, por sua própria vontade. Ele fazia essa viagem a serviço do Foreign Office, a fim de satisfazer o desejo do Museu Britânico de Londres de que fosse explorado o sul da Mesopotâmia — a terra onde o Eufrates e o Tigre se avizinham cada vez mais um do outro ao se aproximarem do golfo Pérsico —, em busca de antigos monumentos arquitetônicos. Em Baçorá, Taylor havia ouvido falar muitas vezes do estranho e imenso monte de pedras de que se aproximava nesse momento. Parecia-lhe um objeto adequado para a sua expedição.

Nos meados do século XIX, iniciaram-se pesquisas e escavações por toda parte, no Egito, na Mesopotâmia e na Palestina, obedecendo a um desejo subitamente surgido de formar uma ideia cientificamente alicerçada sobre a história da humanidade naquela parte do mundo. O objetivo de uma vasta série de expedições foi o Oriente Próximo.

Até então, desde o ano 550 a.C. aproximadamente, a Bíblia fora a única fonte de informações sobre a história da Ásia Menor. Só ela falava de tempos que se perdiam nas sombras do passado. Surgiram na Bíblia povos e nomes de que nem os gregos e romanos antigos tinham mais notícia alguma.
Pelos meados do século passado, multidões de eruditos foram atraí-das irresistivelmente para as terras do antigo Oriente. Ninguém conhecia os nomes que em breve andariam em todas as bocas. Os homens do “Século das Luzes” ouviam com assombro a respeito de seus achados e descobertas. O que aqueles homens arrancaram, a poder de contínuo e árduo trabalho, das areias do deserto ao longo dos grandes rios da Mesopotâmia e do Egito chamou com justiça a atenção de milhões e milhões de pessoas: ali a ciência abria pela primeira vez a porta do misterioso mundo da Bíblia.
O cônsul francês em Mossul, Paul-Émile Botta, é um arqueólogo inspirado. Em 1843, ele inicia escavações em Khursabad, no Tigre, e traz à luz do dia, das ruínas de uma metrópole de quatro mil anos, em todo o seu esplendor, os primeiros testemunhos da Bíblia: Sargão, o lendário soberano da Assíria. No ano em que Tartan, enviado por Sargão, rei dos assírios, foi contra Azot... (Isaías 20.1).

Dois anos depois, um jovem diplomata e explorador inglês, A. H. Layard, pôs a nu Nimrod (Callach), a cidade que na Bíblia se chama Cale (Gênese 10.11) e agora tem o nome do bíblico Nemrod, um poderoso caça-dor diante do Senhor. O princípio do seu reino foi Babilônia, e Arac, e Acad, e Calane, na terra de Senaar. Daquela terra foi para Assur, e edificou Nínive, e as praças da cidade, e Cale... (Gênese 10.10,11).

Pouco tempo depois, escavações realizadas a onze quilômetros de Khursabad, sob a direção do major inglês Henry Creswicke Rawiinson, que se tornou um dos assiriólogos mais notáveis, puseram a descoberto a capital assíria de Nínive e a célebre biblioteca do Rei Assurbanipal. É a Nínive da Bíblia, cuja maldade os profetas verberam repetidamente (Jonas 1.2).

Na Palestina, o sábio americano Edward Robinson dedica-se, entre 1838 e 1852, à reconstituição da antiga topografia.

O alemão Richard Lepsius, posteriormente diretor do Museu Egípcio de Berlim, registra, numa expedição que se prolonga de 1842 a 1846, os monumentos arquitetônicos do Nilo.
Depois de o francês Champollion ter conseguido decifrar os hieróglifos egípcios, por volta de 1850 é igualmente solucionado o mistério da escrita cuneiforme, entre outros por Rawlinson, o explorador de Nínive. Os velhos documentos começam a falar!

Mas voltemos à caravana que se aproxima do Tell al Muqayyar.

O Cônsul Taylor manda armar as tendas junto ao morro vermelho. Ele não tem ambições nem preparo científico. Por onde deverá começar? Em que lugar poderá, com acerto, pôr as turmas de nativos a escavar? O grande monte de tijolos, obra-prima arquitetônica de um passado obscuro, em nada o sensibiliza como construção. É possível que no seu bojo durma algo que mereça ocupar lugar num museu e interesse aos cavalheiros de Londres. Pensa vagamente em alguma velha estátua, em armas, adereços ou talvez até num tesouro oculto. Ataca o estranho morro e começa a demoli-lo palmo a palmo. Nada indica existir um espaço vazio no interior. A enorme construção parece maciça. O bloco inferior ergue-se a prumo desde a areia a uma altura de quase dez metros. Duas largas rampas de pedra conduzem ao bloco imediatamente superior, um pouco menor, e acima deste erguem-se um terceiro e um quarto.

Taylor sobe degrau após degrau, observa, sob o sol escaldante, pelas quatro fendas e encontra apenas tijolos quebrados. Um dia, banhado em suor, sobe à plataforma superior; duas corujas espantadas levantam voo das muralhas deterioradas pelo tempo. E é só. Mas ele não desanima. Em seus esforços para descobrir os mistérios da construção, toma uma decisão que hoje não podemos deixar de lamentar profundamente. Retira as turmas de trabalhadores da base do morro e põe-nas a trabalhar no alto.

O que os séculos pouparam, o que resistiu às tempestades de areia e ao sol ardente cai vítima das picaretas implacáveis. Taylor manda de¬molir os escalões superiores. A obra de demolição começa nos quatro cantos ao mesmo tempo. Dia após dia massas de tijolos quebrados caem com um ruído surdo junto à base. Um dia, após muitas semanas, cessam bruscamente a gritaria e o bater incessante das picaretas lá no alto. Precipitadamente, dois homens descem o morro e correm para a tenda de Taylor.

Têm nas mãos uns pequenos bastões, cilindros de barro cozido. Taylor ficou decepcionado. Esperava mais. Depois de cuidadosamente espanados, verifica que os rolos de barro estão inteiramente cobertos de inscrições — escrita cuneiforme! Ele não compreende nada daquilo, é claro, mas fica muito satisfeito. Devidamente acondicionados, os cilindros são remetidos para Londres. Mas os eruditos do Tâmisa dão pouca importância a esse achado. Esse fato não causa nenhuma surpresa, pois naqueles anos os pesquisadores olham fascinados para o norte da Mesopotâmia, onde, no curso superior do Tigre, nos montes de Nínive e de Khursabad, estão vindo à luz do dia palácios e gigantescos relevos assírios, bem como milhares de tabuinhas de barro e estátuas que obscurecem tudo o mais. Que importância poderão ter os pequenos cilindros de barro do Tell al Muqayyar? Durante mais dois anos Taylor continua o seu trabalho incansavelmente no Tell al Muqayyar, mas sem resultado. É então chamado à pátria.

Somente setenta e cinco anos mais tarde o mundo virá a conhecer o tesouro imensurável que dorme sob aquele antigo morro artificial.

No que diz respeito aos cientistas, o Tell al Muqayyar cai de novo no esquecimento. Mas não fica abandonado. Logo após a partida de Taylor aparecem multidões de outros visitantes. Os muros destruídos e, sobretudo, os escalões superiores demolidos pelas turmas de Taylor oferecem uma conveniente e inesgotável mina de materiais de construção, incalculáveis e gratuitos, para os árabes, que ano após ano acorrem de todas as partes e saem dali com suas bestas carregadas de tijolos. Moldados há muitos séculos, eles apresentam ainda legíveis os nomes de Ur-Nammu, o primeiro grande construtor, e de Nabonide, o soberano babilônio que restaurou a torre escalonada a que chamavam de “zigurate”. As tempestades de areia, o vento e o ardor do sol acabam a obra de destruição.

Quando, em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, tropas inglesas em marcha para Bagdá vão acampar nas proximidades da velha construção, seu primitivo aspecto está tão mudado, tão arrasada, demolida e saqueada foi durante as décadas que decorreram desde 1854, que um dos soldados consegue realizar uma pequena façanha. O perfil recortado dos antigos escalões desaparecera de tal modo que o soldado consegue escalar a elevação que resta montado num burro.

Por um feliz acaso, encontra-se entre os oficiais da tropa um especialista, R. Campbell Thompson, do serviço de informações do Exército da Mesopotâmia. Em tempos de paz, ele é assistente do Museu Britânico. Com segurança de técnico, Thompson explora o gigantesco monte de tijolos e vê, consternado, a deterioração ocorrida. Exames do solo nos arredores do Tell permitem-lhe vislumbrar outros fundamentos, ruínas e cidades sob a areia do deserto. Thompson registra cuidadosamente suas observações e envia uma comunicação urgente para Londres, o que faz com que os modestos e pequenos cilindros de barro, já quase caídos no esquecimento, voltem a ser examinados com grande diligência.

As inscrições contêm uma informação interessantíssima e, ao mesmo tempo, uma história curiosa.

Quase dois mil e quinhentos anos antes do Cônsul Taylor, outro homem havia buscado e rebuscado no mesmo lugar e com igual interesse! Cultor dos antigos, célebre soberano de um grande reino e arqueólogo, esse homem era o Rei Nabonide da Babilônia, que viveu no século VI a.C. Ele verificou que “o zigurate já era velho então”. Mas Nabonide procedeu de modo diferente do de Taylor. “Mandei reconstruir a estrutura de acordo com a sua forma original, com argamassa e tijolos queimados.” Quando a velha torre escalonada ficou pronta, mandou gravar o nome do primeiro construtor justamente naqueles pequenos cilindros de barro. Ele se chamava, verificou o babilônio por algumas inscrições que conseguira decifrar, Rei Ur-Nammu! Ur-Nammu? Seria o construtor da grande torre escalonada, rei da Ur de que fala a Bíblia, soberano da Ur dos caldeus?

A suposição aproxima-se da verdade. Porque, mais tarde, o mesmo nome bíblico aparece várias vezes. Também mencionam Ur documentos encontrados em outras escavações realizadas na Mesopotâmia. Deve ter sido, segundo relatam os textos cuneiformes, a capital da grande nação suméria. Surge então um grande interesse pelo devastado Tell ai Muqayyar. Os sábios do Museu da Universidade da Pensilvânia juntam-se aos arqueólogos do Museu Britânico com o objetivo de incentivar escavações. É muito possível que a torre escalonada do baixo Eufrates esconda o mistério do desconhecido povo sumério... e da bíblica Ur! Mas somente em 1923 um grupo de arqueólogos angloamericanos consegue partir para lá. Eles são poupados à penosa viagem em oscilante lombo de camelo, pois viajam pela estrada de ferro de Bagdá. Pela estrada de ferro chegam também todos os apetrechos: vagonetas, trilhos, picaretas, cestas.

Os arqueólogos dispõem de uma verba que lhes permitirá escavar uma extensa região. Começam as escavações metodicamente e em grande escala. Como esperam grandes descobertas, contam com trabalho para vários anos. A expedição é dirigida por Sir Charles Leonard Woolley. Este inglês, de quarenta e três anos, obteve suas primeiras consagrações em viagens de pesquisas e escavações no Egito, na Núbia e em Karkemish, no alto Eufrates. Para esse homem competente e bem-sucedido, o Tell al Muqayyar virá a ser a grande tarefa de sua vida. Woolley não dirige sua atenção principal para a torre escalonada, como décadas atrás fizera o diligente mas desavisado Taylor. O objetivo de sua pesquisa concentra-se sobretudo nas elevações achatadas que se erguem a seus pés, na extensa planície de areia.

Aos olhos experientes de Woolley não escapa sua forma singular: elas semelham pequenos planaltos. Planas em cima, suas vertentes são quase simétricas. Existe esse tipo de outeiros, em número incalculável, grandes e pequenos, em todo o Oriente Próximo, às margens dos grandes cursos de água, em meio a planícies férteis, nas trilhas e caminhos por onde, desde tempos imemoriais, as caravanas atravessam a região. Ninguém até hoje os contou. Encontram-se desde o delta formado pelas desembocaduras do Tigre e do Eufrates, no golfo Pérsico, até as terras altas da Ásia Menor, onde o rio Hális se projeta no mar Negro; exis¬tem nas costas do Mediterrâneo oriental, nos vales do Líbano, às margens do Orontes, na Síria, e na bacia do Jordão, na Palestina.

Essas elevações de terreno são as grandes e cobiçadas minas dos arqueólogos, até agora inesgotáveis. Não são formações naturais e sim produtos artificiais, amontoados pela sucessão de inúmeras gerações que viveram antes de nós, gigantescos montes de escombros e refugos de outrora, formados pelos restos de choupanas e casas, muros de cidades, templos ou palácios. Cada uma dessas colinas adquiriu gradualmente sua forma, mais ou menos do mesmo modo, no decorrer de longos séculos, de milênios até.

Em dado momento, alguns homens edificaram ali um primeiro povoado, que foi destruído pela guerra ou pelo fogo ou foi abandonado por seus habitantes. Conquistadores ou novos colonos chegaram e se estabeleceram no mesmo local. Gerações após gerações foram construindo no mesmo sítio suas povoações e cidades, umas sobre as outras. No curso dos tempos, as ruínas e escombros de inumeráveis povoações foram se amontoando camada sobre camada, metro após metro, até formarem uma colina. Os árabes chamam “tell” a esses montes artificiais. Já na antiga Babilônia, essa palavra era usada para o mesmo fim. “Tell” significa “pilha”. Na Bíblia, encontramos a palavra no livro de Josué, 11.13. Na narrativa da conquista de Canaã, fala-se de cidades que estavam situadas nas colinas. A palavra usada é “tulul”, ou seja, o plural de “tell”‘. Os árabes sabem distinguir perfeitamente o tell dos relevos naturais do terreno, a que chamam “jebel”.

Cada tell é, por assim dizer, um livro de história mudo. Suas camadas de terreno são para os arqueólogos como folhas de antiquíssimo calendário, de posse do qual eles podem reconstituir claramente o passado, página por página. Cada camada, se aprendermos a ler seus indícios, fala da época, da vida, dos costumes, da habilidade artística, da cultura e civilização de seus habitantes. E nesse trabalho os arqueólogos têm chegado, com o tempo, a resultados verdadeiramente espantosos.

Pedras, talhadas ou não, tijolos ou restos de barro mostram como eram feitas as construções naquele tempo. Até as pedras carcomidas pelo tempo e os restos esfarelados de tijolos permitem deduzir com precisão o traçado das construções. Manchas escuras mostram onde outrora a lareira irradiou seu clarão acolhedor.

Vasos quebrados, armas, utensílios domésticos e ferramentas, que se encontram por toda parte entre os escombros, contribuem para a investigação detetivesca do passado.

Hoje em dia, conhecem-se com tanta exatidão as diferentes formas, cores e desenhos de potes e vasos, que a cerâmica se tornou o cronômetro arqueológico número 1. Cacos isolados, mesmo os pequeninos fragmentos, às vezes, permitem estabelecer datas com precisão. Até o segundo milênio a.C, o limite máximo de erro relativo à determinação de datas não vai além de cinqüenta anos!

No decorrer das primeiras escavações do século passado, perderam-se documentos inestimáveis, porque não se dava atenção alguma aos cacos, considerados sem valor. Eram postos de lado. Importantes para os arqueólogos daquele tempo eram apenas os grandes monumentos, os relevos, as estátuas ou os tesouros. Assim se perderam para sempre muitos objetos preciosos. O precursor dos exploradores da Antigüidade, Heinrich Schliemann, é um exemplo disso. Possuído de ardente orgulho, tinha apenas uma coisa em vista: encontrar a Tróia de Homero. Dispondo suas turmas em colunas, atacou a terra em profundidade. Camadas que poderiam ter tido grande significação como “calendário” eram removidas como entulho inú¬til. Por fim, Schliemann arrancou da terra um tesouro precioso que maravilhou todo o mundo. Não era, porém, como ele acreditara, o tesouro de Príamo. O achado procedia de uma época muitos séculos anterior. Na sua ânsia de sucesso, Schliemann havia cavado fundo demais. Comerciante du¬rante toda a sua vida, Schliemann era um adventício, um leigo. Mas os próprios especialistas não faziam melhor trabalho no princípio. Só a partir de poucos decênios atrás os arqueólogos começaram a trabalhar segundo um sistema estabelecido pela experiência. Começando de cima, examina-se o solo do tell centímetro por centímetro, estudam-se um por um os menores fragmentos e cacos de barro. A seguir, faz-se um profundo corte na colina. As camadas de diferentes cores apresentam-se aos olhos do explorador como uma torta cortada e permitem ao perito uma primeira visão retrospectiva da história dos estabelecimentos humanos aí sepultados. Foi obedecendo a essa rotina já consagrada que no ano de 1923 a expedição anglo-americana começou a trabalhar no Tell al Muqayyar.
Nos primeiros dias de dezembro levantou-se uma nuvem de pó sobre os montes de entulho a leste do zigurate, a poucos passos apenas da larga rampa por onde outrora os sacerdotes se dirigiam, em procissão solene, ao sacrário de Nannar, o deus da Lua. Levada por uma brisa, a nuvem se espalhou e em breve teve-se a impressão de que a velha torre escalonada estava toda envolta em tênue nebulosidade. Era areia fina que, removida por centenas de pás, indicava que a grande escavação havia começado.

Desde o momento em que a primeira pá foi cravada no solo, toda a colina se envolveu numa atmosfera de ansiosa expectativa. Cada escavação parecia uma viagem a um reino desconhecido, que ninguém sabe que surpresa reserva ao explorador. O próprio Woolley e seus colaboradores não podiam dominar a impaciência. O suor e as energias empregados nesse trabalho seriam compensados por importantes descobertas? Ur lhes desvendaria seus mistérios? Nenhum deles podia imaginar que isso lhes tomaria seis longos invernos de árduo trabalho, até a primavera de 1929. Essa escavação em grande escala, ao sul da Mesopotâmia, viria a desvendar, capítulo por capítulo, os tempos distantes em que se formou nova terra no delta dos dois grandes rios e onde se estabeleceram os primeiros povoados humanos. Ao longo do penoso caminho da pesquisa, que retrocedeu no tempo até sete mil anos atrás, tomariam forma, por mais de uma vez, acontecimentos e nomes de que nos fala a Bíblia.

A primeira descoberta consistiu num recinto sagrado com os restos de cinco templos que outrora envolviam, num semicírculo, o zigurate construído pelo Rei Ur-Nammu. Os exploradores pensaram tratar-se de fortale-as, tão poderosos eram seus muros. O maior, ocupando uma superfície de cem por sessenta metros, era consagrado ao deus da Lua, outro templo ao culto de NinGal, deusa da Lua e esposa de Nannar. Cada templo tinha um pátio interior, circundado por uma série de compartimentos.

Neles se encontravam ainda as antigas fontes, com longas pias calafetadas a betume, e profundos talhos de faca nas grandes mesas de tijolos, que permitiam ver onde os animais destinados ao sacrifício eram mortos. Em lareiras situadas nas cozinhas dos templos, esses animais eram preparados para o repasto sacrificai comum. Havia até fornos para cozer pão. “Depois de trinta e oito séculos”, observou Woolley em seu relatório da expedição, “podia-se acender novamente o fogo ali, e as mais antigas cozinhas do mundo podiam ser utilizadas novamente.”

Hoje em dia, as igrejas, os tribunais, a administração das finanças, as fábricas são instituições rigorosamente independentes entre si. Em Ur era diferente. O recinto sagrado, a circunscrição do templo, não era dedicada exclusivamente ao culto dos deuses. Além dos atos do culto, os sacerdotes desempenhavam muitas outras funções. Foras as oferendas, recebiam os dízimos e os impostos. E isso não se fazia sem o devido registro. Cada entrega era anotada em tabuinhas de barro — certamente os primeiros recibos de impostos de que se tem conhecimento. Sacerdotes escribas englobavam essa coleta de impostos em memorandos semanais, mensais e anuais.

Ainda não se conhecia o dinheiro cunhado. Os impostos eram pagos em espécie: cada habitante de Ur pagava à sua maneira. O azeite, os cereais, as frutas, a lã e o gado iam para vastos depósitos; os artigos de fácil deterioração eram guardados em estabelecimentos comerciais existentes no templo.

Muitas mercadorias eram beneficiadas no próprio templo, como nas tecelagens dirigidas por sacerdotes. Uma oficina produzia doze espécies de vestes. Nas tabuinhas ali encontradas estavam anotados os nomes das tece-lãs empregadas e os meios de subsistência conferidos a cada uma. Até o peso de lã confiado a cada operária e o número de peças de roupa prontas que daí resultava eram registrados com minuciosa precisão. No edifício de um tribunal foram encontradas, cuidadosamente empilhadas, cópias de sentenças, tal como se faz em nossos tribunais de hoje.

Havia já três invernos que a expedição anglo-americana trabalhava nos sítios da velha Ur, e esse singular museu da história primitiva da humanidade ainda não havia revelado todos os seus segredos. Fora do recinto do templo os exploradores experimentaram uma surpresa inaudita.

Ao limparem uma série de colinas ao sul da torre escalonada, surgiram de repente diante de seus olhos paredes, muros e fachadas dispostas umas ao lado das outras, fila após fila. Pouco a pouco, as pás puseram a descoberto na areia um compacto quadrado de casas cujas ruínas mediam ainda em algumas partes três metros de altura. Entre elas passavam estrei¬tas ruelas. Em alguns trechos, as ruas eram interrompidas por praças.

Após muitas semanas de trabalho árduo e remoção de inúmeras tone-ladas de cascalho, apresentou-se aos escavadores um quadro inesquecível.

Sob o avermelhado Tell al Muqayyar estendia-se ao sol brilhante toda uma cidade, despertada pelos incansáveis pesquisadores após um sono de milênios! Woolley e seus colaboradores ficaram fora de si de alegria. Pois diante deles estava Ur, aquela Ur dos caldeus de que falava a Bíblia!
E como seus habitantes moravam confortavelmente! Como eram vis-tosas as suas casas! Em nenhuma outra cidade da Mesopotâmia foram descobertas habitações tão esplêndidas e confortáveis.

Comparadas a elas, as habitações que se conservaram da Babilônia parecem pobres, miseráveis mesmo.

O Prof. Koldewey, nas escavações alemãs realizadas no princípio deste século, só encontrou construções simples de barro, de um andar, com três ou quatro cômodos, em volta de um pátio aberto. Assim vivia também a população da tão admirada e louvada metrópole do grande babilônio Nabucodonosor. Os cidadãos de Ur, ao contrário, já mil e quinhentos anos antes viviam em construções maciças em forma de vilas, a maioria de dois andares, com treze a catorze cômodos. O andar inferior era sólido, construído de tijolos cozidos no forno; o de cima, de barro, as paredes caiadas de branco.

O visitante transpunha a porta e entrava num pequeno vestíbulo, onde havia pias para lavar a poeira das mãos e dos pés. Daí passava ao grande e claro pátio interior, cujo chão era lindamente pavimentado. Em volta dele se agrupavam a sala de visitas, a cozinha, as demais salas e quartos também para os criados e o santuário doméstico. Por uma escada de pedra, sob a qual se escondia a privada, subia-se a uma antecâmara circular para onde abriam os quartos dos membros da família e dos hóspedes.

Sob muros e paredes demolidos reapareceu à luz do dia tudo o que havia integrado as mobílias e a vida naquelas casas aristocráticas. Inúmeros fragmentos de potes, cântaros, vasos e tabuinhas de barro com inscrições foram compondo um mosaico pelo qual foi possível reconstruir pedrinha a pedrinha a vida cotidiana de Ur. A Ur dos caldeus era uma capital pode-rosa, próspera, colorida e industriosa no começo do segundo milênio antes de Cristo.

Woolley não conseguia livrar-se de um pensamento que lhe ocorrera. Abraão devia ter saído da Ur dos caldeus... Portanto, devia ter vindo ao mundo e crescido numa daquelas casas aristocráticas de dois andares. Devia ter passeado junto aos muros do grande templo e pelas ruas, e, levantando a vista, seu olhar devia ter encontrado a gigantesca torre escalonada com seus cubos pretos, vermelhos e azuis circundados de árvores. “Vendo em que ambiente requintado passou a juventude, devemos modificar nossa concepção do patriarca hebreu”, escreveu Woolley com entusiasmo. “Foi cidadão de uma grande cidade e herdou a tradição de uma civilização antiga e altamente organizada. As próprias casas denunciavam conforto, até mesmo luxo. Encontramos cópias de hinos relativos ao culto do templo e, junta¬mente com eles, tabelas matemáticas. Nessas tabelas havia, ao lado de simples problemas de adição, fórmulas para a extração das raízes quadrada e cúbica. Em outros textos, os escribas haviam copiado as inscrições dos edifícios da cidade e compilado até uma resumida história do templo!”

Abraão não era um simples nômade: era filho de uma metrópole do segundo milênio antes de Cristo.
Foi uma descoberta sensacional, aparentemente incrível! Jornais e re-vistas publicaram fotografias da velha e desmantelada torre escalonada e das ruínas da metrópole desenterrada, que produziram tremenda impressão. Um desenho surpreendente trazia a seguinte legenda: “Casa do tempo de Abraão”.

Woolley havia encomendado esse desenho a um artista. Era uma reconstituição fiel à realidade segundo os achados. No pavimento quadriculado do pátio interior, viam-se duas altas bilhas; uma balaustrada de madeira, no andar de cima, separava os quartos do pátio. A tradicional e querida imagem de Abraão como patriarca, rodeado de sua prole e de seus rebanhos, tal como a tinham figurado gerações após gerações, ter-se-ia tornado subitamente falsa?

A concepção de Woolley não ficou sem contestação. Não tardou que teólogos e até mesmo arqueólogos começassem a criticá-la.

Em favor da opinião de Woolley falava o versículo 31 do 11.° capítulo do Gênese: Tomou, pois, Terah a seu filho Abraão e a Ló... e fê-los sair da Ur dos caldeus. Mas também há passagens bíblicas que mencionam outro lugar: quando Abraão manda seu servo mais antigo de Canaã à cidade de Nacor buscar uma esposa para seu filho Isaac, chama a essa Nacor minha terra (Gênese 24.4, etc.) e casa de meu pai e terra do meu nascimento (Gênese 24.7). Nacor estava situada no norte da Mesopotâmia. Depois da conquista da Terra Prometida, assim falou Josué ao povo reunido: Vossos pais, Terah, pai de Abraão e de Nacor, habitaram desde o princípio na banda de além do rio (Josué 24.2). Aqui, como em outras passagens da Bíblia, o “rio” é o Eufrates. A cidade de Ur foi desenterrada na margem direita do Eufrates. Vista de Canaã, ela fica aquém e não além do grande rio. Teria Woolley sido precipitado em suas conclusões? Que fornecera de positivo a expedição? Onde estava a prova de que Terah e seu filho Abraão eram de Ur, de que eram habitantes da cidade?

“A primitiva viagem da Ur dos caldeus para Harã não encontrou, tirando a descoberta da própria cidade, nenhuma confirmação arqueológica”, declara William F. Albright, professor da Universidade John Hopkins, de Baltimore. E esse erudito, que é também explorador de renome e considerado grande conhecedor da arqueologia da Palestina e do Oriente Próximo, acrescenta: “E o fato notável de os tradutores gregos nunca mencionarem Ur e sim a ‘terra (dos caldeus)’ podia significar que a transferência da pátria de Abraão para Ur era coisa secundária e não conhecida geralmente no terceiro milênio antes de Cristo.”

Com Ur surgiu das sombras do passado a capital dos sumérios, um dos mais antigos povos da Mesopotâmia. Os sumérios, isso nós sabemos, não eram semitas como os hebreus. Quando, por volta do ano 2000 a.C, começou a grande invasão de nômades semitas do deserto da Arábia, os invasores se detiveram ao sul, primeiro em Ur, com suas extensas plantações e canais. É possível que a recordação daquela grande expedição às terras do Crescente Fértil, em que Ur também foi tocada, ficasse gravada na Bíblia. Pesquisas sérias e, sobretudo, escavações nas duas últimas décadas demonstraram, quase com certeza, que Abraão não podia ter sido, em tempo algum, cidadão da metrópole sumeriana. Isso contraria inteiramente a imagem que o Velho Testamento nos transmitiu sobre a vida do pai dos patriarcas: Abraão vive na sua tenda, segue com seus rebanhos de pastagem em pastagem, de fonte para fonte. Não vive como habitante de uma grande metrópole — leva a vida típica dos nômades!

Muito mais ao norte do Crescente Fértil surgirá de repente da obscuridade mítica a história dos patriarcas da Bíblia em seu ambiente histórico.


Fonte: Por Werner Keller - Livro e a Bíblia tinha razão... 18ª Edição – 1992